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De cibalena às congas...
Entre apelidos inventados no pátio, amizades de infância e pequenas travessuras, a escola guardava histórias que o tempo nunca conseguiu apagar
11/09/2026 07h56
Por: Gelsiney Schell
Imagem cirada por IA.

Saía logo cedo para a escola.

A sacola era feita com uma perna de calça, com uma alça pendurada no ombro. Coisa chique, cheia de cadernos.

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Camiseta branca por dentro do calção, meias brancas e Conga azul completavam o uniforme.

Naquele tempo, a gente ia para a escola arrumado.

Ou pelo menos achava que ia.

Ao dobrar a esquina, dava de cara com o Cibalena.

Eu não sabia o nome dele.

Para mim, era Cibalena. Só!

E pronto.

Eu era o Maninho, e o pequeno Cibalena caminhava comigo naquelas manhãs.

Quando chegávamos à escola, a nossa turma da pesada já começava a se reunir no pátio.

Era uma verdadeira salada de apelidos.

Tinha o Chulé, o Zé Galinha, o Foguinho, o Nego, o Pipoca, o Picolé, o Pescoço, o Alemão, o Pulga, o Grilo, o Mosquito, o Peru, o Leitão...

E tinha o Carlinhos.

Carlinhos era Carlinhos.

Naquela turma de bichos, insetos, comidas, remédios e sabe-se lá mais o quê, ele parecia ser o único que tinha um nome normal.

Só parecia.

Carlinhos não era Carlinhos.

Era um pivete que aprontava pelas bandas do Botafogo e do Higienópolis.

Certa vez, o maroto pegou uma Monareta escondido e saiu rua abaixo, pedalando a bicicleta que não era dele.

Só que o dono viu.

Quando percebeu o pivete levando sua bicicleta, partiu para cima.

Foi aquela clássica briga de rua: empurra daqui, puxa dali, gritaria, correria...

E o dono acabou acertando o pivete.

Foi assim que nasceu o Carlinhos.

O rapaz que pegou o moleque tinha um nome simples:

Carlos.

E a piazada que assistiu à surra não perdeu tempo.

Na mesma hora, veio o batismo:

— Carlinhos!

E pronto.

Naquele tempo era assim.

No fim da Avenida Maripá, não precisava cartório, certidão nem documento.

Uma briga de rua resolvia tudo.

Até nome surgia.

E o apelido pegava.

As meninas eram mais complicadas.

Não tinham muitos apelidos.

A Fernanda era a Fernanda.

A Carla, no máximo, Carlinha.

Mas nós, os meninos, tínhamos os nossos segredos.

Alguns apelidos eram ditos somente entre nós.

Tinha a Perereca, a Caduca, a Polaca, a Saracura...

E tinha a Pescoço Pelado — uma variação, digamos assim, do mundo galináceo.

Esses nomes não eram para serem gritados no pátio.

Apelido de menina era coisa para falar baixinho, entre os meninos.

Vai que elas escutavam...

Naquele dia, a professora fazia a chamada.

Um nome não respondeu.

O Cibalena estava sentado na sua cadeira, bem na frente. 

Era tão nanico que, lá do fundo da sala, a gente só conseguia enxergar as orelhas.

A professora chamou de novo.

Nada.

Foi então que o Cibalena, com sua voz fina, sem levantar da cadeira, respondeu:

— A Pescoço Pelado não veio hoje.

As meninas se entreolharam.

A professora olhou por cima dos óculos e continuou a chamada.

Lá do fundo da sala, deu para ver as orelhas do Cibalena ficando vermelhas.

Lá fora, algumas crianças jogavam queimada.

Na sala de aula o velho ventilador esparramava o pó de giz pela sala.