Economia Bets da perda
Bets aumentam inadimplência e reduzem acesso ao crédito, aponta estudo
Pesquisa que acompanhou novos apostadores no Brasil identifica aumento médio de 20% na inadimplência e redução de 16% no limite de crédito após o início das apostas online
08/09/2026 10h07
Por: João Livi Fonte: Stone
Nos primeiros seis meses, 90,8% dos apostadores analisados transferiram às plataformas mais dinheiro do que receberam de volta. (Foto: Magnific)

O avanço das apostas online no Brasil começa a revelar efeitos que vão além das perdas diretamente relacionadas aos jogos. Um estudo que acompanhou a trajetória financeira de pessoas que começaram a apostar após janeiro de 2025 aponta aumento da inadimplência, maior atraso no pagamento de cartões e redução do acesso ao crédito.

A pesquisa foi conduzida pelo professor do Insper Sérgio Firpo e por pesquisadores da Stone. O trabalho, intitulado "Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil", ainda não havia sido publicado em revista científica quando os resultados foram divulgados.

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Os pesquisadores compararam pessoas que começaram a apostar com indivíduos de características semelhantes que ainda não haviam ingressado nas plataformas. A análise utilizou dados de movimentações financeiras de clientes da Stone e informações do Banco Central para observar alterações na inadimplência e na disponibilidade de crédito.

Inadimplência cresce após primeira aposta

Nos 12 meses posteriores à primeira aposta, a proporção de pessoas inadimplentes entre os apostadores apresentou crescimento médio 20% maior do que a evolução observada entre aqueles que não apostavam.

O impacto também apareceu no cartão de crédito. A parcela da fatura em atraso aumentou, em média, 38,7% no primeiro ano após o início das apostas, já descontada a variação registrada no grupo que não utilizava plataformas de jogos.

Um dos dados que ajudam a dimensionar o comprometimento financeiro mostra que um em cada dez apostadores analisados destinava às bets mais de 20% de todo o dinheiro que saía de sua conta bancária mensalmente.

Segundo Sérgio Firpo, o mecanismo é direto: os recursos direcionados às apostas deixam de estar disponíveis para outras despesas. Quando uma parcela elevada do orçamento é destinada ao jogo, aumenta a possibilidade de faltar dinheiro para compromissos anteriormente assumidos.

Bancos reduzem oferta de crédito

Outro efeito identificado está na relação dos apostadores com as instituições financeiras. Após começarem a jogar, os participantes analisados sofreram redução de aproximadamente 16% no limite de crédito disponível, descontada a evolução geral da oferta de crédito na economia.

O resultado indica que as instituições financeiras podem incorporar o comportamento relacionado às apostas em suas avaliações de risco e restringir a disponibilidade de recursos diante da possibilidade de aumento da inadimplência.

A dimensão chama atenção porque se aproxima do impacto financeiro observado em situações de perda do emprego. Pesquisa acadêmica anterior, citada no estudo, identificou redução próxima de 20% no limite do cartão de crédito de trabalhadores atingidos por demissões.

Jovens podem sofrer impacto maior

A idade também aparece como fator relevante. Os pesquisadores constataram que pessoas mais jovens tendem a comprometer uma parcela maior do orçamento com apostas e apresentam efeitos mais intensos sobre a inadimplência.

Como os clientes da Stone analisados são, em média, mais velhos do que o perfil geral dos apostadores brasileiros, os autores consideram possível que o impacto sobre a inadimplência na população seja ainda maior do que aquele encontrado na amostra.

Os números também mostram que apostar está longe de significar retorno financeiro garantido. Durante os primeiros seis meses após começarem a jogar, 82,5% dos apostadores não receberam qualquer recurso das plataformas. No mesmo intervalo, 90,8% transferiram para as bets mais dinheiro do que receberam de volta.

Dificuldade financeira também pode levar às apostas

A pesquisa identificou ainda uma relação no sentido inverso. Pessoas que já enfrentavam dificuldades financeiras apresentaram maior propensão a começar a apostar, indicando que parte dos usuários pode recorrer aos jogos na expectativa de obter dinheiro para enfrentar problemas financeiros preexistentes.

Esse comportamento cria o risco de um ciclo: a dificuldade econômica pode estimular a entrada nas apostas e, posteriormente, o dinheiro destinado ao jogo pode ampliar o comprometimento da renda, a inadimplência e a restrição de crédito.

Os pesquisadores também apontam a possibilidade de efeitos mais amplos sobre a economia à medida que cresce o número de brasileiros que utilizam plataformas de apostas. Embora o estudo não tenha mensurado impactos macroeconômicos, a redução do crédito e o comprometimento da renda podem afetar a capacidade de consumo dos apostadores.

Os autores defendem maior discussão sobre mecanismos capazes de limitar os prejuízos financeiros associados às apostas, especialmente nos jogos de cassino online, caracterizados por rodadas rápidas e possibilidade de repetição contínua.