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Fúta
Entre a carroça, a cuca e as palavras do Opa, as lembranças de uma infância no interior que o tempo transformou em memória
04/09/2026 08h45 Atualizada há 16 horas
Por: Gelsiney Schell

Eu lá, sentado na frente da mesa, esperando a mãe terminar de cortar a cuca.

O Opa já estava no ritual de todas as manhãs: afiando a foice para cortar “fúta” pras vacas.

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O café da manhã era simples: café mit Milch, Vocht e cuca. Às vezes, bolacha pintada. E, nos dias mais fartos, torresmo.

A mãe na cozinha. O Opa preparando a lida. Eu, ainda pequeno, esperando a minha vez de pegar um pedaço de cuca.

Era assim que começava o dia.

Naquele tempo, eu não sabia que aquelas palavras misturadas — alemão e português — um dia seriam lembranças.

Para mim, era só o jeito que a gente falava.

E “fúta” era apenas “fúta”.

A carroça, puxada por duas vacas mais novas, esperava do lado de fora.

O Opa dava o rumo às vacas, e eu ia sentado ao lado dele.

O estradão era comprido.

O ritmo era do interior: lento, devagar. A carroça rangendo, as rodas marcando o caminho, as vacas seguindo no passo conhecido.

Eu ia absorvendo tudo.

O cheiro da terra.

O barulho das folhas.

O movimento da carroça.

As cercas passando devagar.

E, principalmente, aquela sensação de que o mundo era grande, mas aquele caminho era todo meu.

Eu conseguia pular e subir na carroça em movimento. Era assim que, no caminho, pegava frutas na beira do estradão.

Goiaba.

Bergamota.

Amora.

Ameixa.

Frutas que hoje parecem ter outro gosto.

Talvez porque fossem comidas no caminho.

Ou talvez porque fossem comidas na infância.

Lá no São Cristóvão, o Opa passava a foice rasteira no pasto.

O movimento era preciso.

A lâmina entrava no capim e o derrubava rente ao chão.

A cada feixe, a carroça ia ganhando volume.

Eu ficava por perto, olhando.

Para ele, era trabalho.

Para mim, era aventura.

O cheiro da grama recém-cortada se misturava ao cheiro da terra úmida.

E a carroça, aos poucos, ia ficando cheia de “fúta”.

Depois era hora de voltar.

Na chegada ao sítio, as vacas já reconheciam, de longe, o barulho da carroça.

Vinham correndo ao nosso encontro.

E o Opa chamava:

— Kommt, kommt... Vaca, kommt...

Eu não sabia escrever aquela palavra.

Nem sabia o que ela significava.

Eu só conhecia o som.

E sabia que, quando o Opa dizia aquilo, as vacas vinham.

Com minhas mãos, pegava os feixes de pasto e jogava para elas.

Era o trato.

Depois, o Opa seguia pro Shoppa.

Ligava a moega.

Moía algumas canas.

Puxava um sepo.

E tomávamos guarapa.

A cana esmagada soltava aquele caldo doce, e o sítio parecia ter seus próprios cheiros e seus próprios sons.

A moega trabalhando.

As vacas mugindo.

A madeira rangendo.

O cheiro da cana.

A guarapa doce.

A foice encostada num canto.

A carroça parada depois da lida.

E aquele alemão misturado com português, que, para mim, não era alemão nem português.

Era simplesmente a língua da casa.

A língua do Opa.

Naquele tempo, eu não sabia que um dia sentiria falta de tudo aquilo.

A gente nunca sabe.

Os anos passaram.

E “fúta” ficou.

Muito tempo depois, já adulto, descobri que aquela palavra que eu ouvia do Opa vinha do alemão Futter.

Forragem.

Alimento para animais.

Era isso que ele cortava no pasto.

Era isso que enchia a carroça.

Era isso que eu ajudava a levar para as vacas.

Mas Futter, no dicionário, era apenas uma palavra.

Para mim, era uma manhã de infância.

Era a cuca na mesa.

O café mit Milch.

A carroça no estradão.

O cheiro da grama cortada.

As vacas correndo ao nosso encontro.

Era o Opa.

Por isso, quando digo “fúta”, não estou falando apenas de forragem.

Estou falando de uma época.

De um lugar.

De uma infância.

E de uma palavra que ficou guardada na memória.

“Fúta.”

A palavra do Opa.

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GLOSSÁRIO DA INFÂNCIA

Fúta — Futter
Forma como a palavra Futter ficou registrada na memória oral da família. Em alemão, Futter significa alimento para animais ou forragem. Na infância do narrador, “fúta” era o alimento cortado no pasto e levado para as vacas.

Shoppa — Schopf
Forma oral lembrada pelo narrador. Schopf é um termo regional alemão utilizado para designar galpão, barracão ou construção anexa. Na propriedade, era o galpão do sítio, espaço onde aconteciam parte dos trabalhos e onde ficavam ferramentas e equipamentos.

Kommt
Forma do verbo alemão kommen, “vir”. Kommt! é uma forma de imperativo. Na lembrança do narrador, era o chamado do Opa para que as vacas viessem até ele.

Mit Milch
“Com leite”. Na fala familiar, referia-se ao café com leite servido no café da manhã.

Vocht
Palavra preservada na memória familiar para designar a linguiça defumada servida à mesa. A grafia registra a forma como foi ouvida na infância, sem pretender estabelecer uma grafia alemã padrão.

Cuca
Bolo de tradição germânica, incorporado à culinária das comunidades de descendentes de alemães do Sul do Brasil.

Bolacha pintada
Bolacha caseira decorada, presente nas mesas familiares e em ocasiões especiais.

Torresmo
Pedaços de pele e gordura de porco fritos. Na memória do narrador, apareciam no café da manhã nos dias mais fartos.

Guarapa
Caldo doce extraído da cana-de-açúcar depois de esmagada na moega.

Moega
Equipamento utilizado para esmagar a cana e extrair seu caldo.

Sepo
Tronco ou pedaço de madeira utilizado como apoio para determinadas tarefas rurais.

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.