Os quatro maiores bancos de varejo do Brasil encerraram o segundo trimestre de 2026 com aumento da inadimplência na comparação com o mesmo período do ano passado. Os números mostram uma deterioração da capacidade de pagamento de famílias e empresas em um ambiente ainda marcado pelo elevado custo do crédito.
O movimento atingiu Banco do Brasil, Santander, Bradesco e Itaú Unibanco. O indicador considerado compara os empréstimos com atraso superior a 90 dias com o total da carteira de crédito de cada instituição.
Entre os quatro bancos, a situação mais acentuada foi registrada pelo Banco do Brasil. A inadimplência total passou de 4% no segundo trimestre de 2025 para 5,6% no mesmo período deste ano - aumento de 1,6 ponto percentual.
Na carteira destinada às pessoas físicas, a deterioração foi ainda maior. A taxa de inadimplência do Banco do Brasil avançou de 5,6% para 8,4% em 12 meses. Somente entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, o indicador passou de 6,8% para 8,4%.
Parte da pressão está relacionada ao agronegócio, segmento no qual a instituição possui forte presença. Dados do Banco Central apontaram que a inadimplência do crédito rural destinado a pessoas físicas chegou a 7,4% em fevereiro, ante 2,9% um ano antes.
Diante do aumento do risco, o Banco do Brasil ampliou provisões destinadas à cobertura de eventuais perdas e tornou mais rigorosas as condições para novas concessões de crédito rural, incluindo maior exigência de garantias.
Embora em proporções menores, Santander, Bradesco e Itaú também apresentaram aumento dos atrasos superiores a 90 dias.
No Santander, a inadimplência total passou de 2,6% para 3,3% entre o segundo trimestre de 2025 e igual período de 2026. No Bradesco, avançou de 4,1% para 4,4%. O Itaú apresentou a menor oscilação, de 2% para 2,1%.
O comportamento semelhante entre as quatro instituições amplia o sinal de atenção. Em vez de uma deterioração restrita a determinada carteira de crédito, os números apontam para uma pressão mais disseminada sobre os tomadores de recursos.
O cenário empresarial acompanha essa tendência. Dados da Serasa Experian indicam que 2025 terminou com 2.466 empresas envolvidas em processos de recuperação judicial, maior número da série histórica. Durante o ano, foram registrados 977 pedidos de recuperação judicial.
A agropecuária respondeu por 30,1% desses pedidos, participação bastante superior aos 1,3% registrados em 2012.
Outro indicador ajuda a dimensionar a situação. Em janeiro de 2026, 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados no país, com dívida média superior a R$ 23 mil por empresa.
Um dos componentes centrais desse cenário é a permanência dos juros em patamar elevado. Mesmo com quatro reduções consecutivas promovidas pelo Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic chegou a agosto em 14% ao ano.
Como o impacto das taxas de juros sobre a inadimplência ocorre com defasagem, famílias e empresas ainda carregam compromissos financeiros assumidos durante um período prolongado de crédito caro.
Os efeitos também chegaram a companhias de grande porte. Raízen e GPA recorreram a processos de recuperação extrajudicial em meio às dificuldades financeiras. A Raízen apresentou um plano envolvendo aproximadamente R$ 65,4 bilhões em dívidas, enquanto o GPA negocia a reestruturação de cerca de R$ 4,5 bilhões.
Para bancos, empresas e investidores, os indicadores reforçam um cenário de maior seletividade na concessão e na tomada de crédito. A velocidade de eventual melhora dependerá, entre outros fatores, da trajetória dos juros e da capacidade de recuperação financeira de famílias, produtores rurais e empresas nos próximos trimestres.