Agronegócio Bioinseticidas
Tecnologia brasileira avança na produção industrial de bioinseticidas
Processo desenvolvido pela Embrapa e pela Efense permite produzir fungos em larga escala e apresentou eficiência de até 93% contra importantes pragas agrícolas
26/08/2026 13h43
Por: João Livi Fonte: Embrapa
Tecnologia desenvolvida pela Embrapa e pela Efense utiliza fungos entomopatogênicos para produzir bioinseticidas destinados ao controle de pragas agrícolas (Imagem: Divulgação/Embrapa)

Pesquisadores da Embrapa, em parceria com a empresa Efense, desenvolveram um processo completo para a produção industrial de bioinseticidas à base de fungos capazes de infectar e controlar insetos. A tecnologia apresentou resultados contra duas importantes pragas da agricultura brasileira: a mosca-branca (Bemisia tabaci biótipo B) e a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda).

O avanço envolve diferentes etapas, desde a fermentação líquida em escala industrial até a formulação, armazenamento e validação dos produtos em condições de campo. Um dos principais resultados foi a elevada produção de blastosporos - células naturalmente produzidas por fungos entomopatogênicos durante a infecção dos insetos.

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Nos experimentos, foi possível produzir mais de 1 bilhão de blastosporos por mililitro em apenas dois dias de fermentação. Segundo Aline Lira, que participou do projeto durante seu doutorado na Esalq-USP como bolsista da Embrapa Meio Ambiente, o resultado ajuda a superar dois entraves para a utilização comercial da tecnologia: a produção em larga escala e a estabilidade dessas células durante o armazenamento.

Produção chega a biorreatores de 1.200 litros

A multiplicação dos blastosporos por fermentação líquida oferece vantagens em relação à produção tradicional de conídios por fermentação sólida. O processo pode ser mais rápido, uniforme e adequado à automação industrial.

Depois dos testes em laboratório, a tecnologia foi escalonada inicialmente para biorreatores de sete litros e, posteriormente, chegou a equipamentos industriais com capacidade de 1.200 litros.

Mesmo nessa escala, os cultivos alcançaram, em média, entre 1,8 bilhão e 2,8 bilhões de unidades formadoras de colônia por mililitro no período de dois a quatro dias de fermentação. Para o pesquisador Gabriel Mascarin, da Embrapa Meio Ambiente, os resultados demonstram a viabilidade técnica do processo em escala compatível com a produção industrial.

Formulação amplia estabilidade

Outro desafio foi aumentar o período de conservação dos blastosporos sem recorrer previamente à secagem por convecção, procedimento que pode elevar os custos de fabricação.

Os pesquisadores avaliaram formulações utilizando dispersão em óleo vegetal e sílica amorfa. As combinações conseguiram preservar a viabilidade dos fungos por até 90 dias sob refrigeração. A formulação oleosa também aumentou a virulência dos blastosporos em comparação aos não formulados.

Nos testes em laboratório e casa de vegetação, os produtos alcançaram mortalidade entre 70% e 93% de lagartas-do-cartucho e ninfas de mosca-branca quando utilizada a concentração de 10 milhões de blastosporos por mililitro.

Resultados chegam às lavouras de soja

A tecnologia também passou por avaliações em condições reais de cultivo. Durante duas safras consecutivas de soja - 2022/2023 e 2023/2024 -, aplicações sucessivas dos bioinseticidas reduziram significativamente as populações de mosca-branca nas áreas experimentais.

Os novos produtos foram comparados a bioinseticidas comerciais já registrados no Brasil. Os resultados indicaram potencial para utilização das formulações à base de blastosporos em programas de manejo integrado de pragas.

O desenvolvimento consolida mais de uma década de pesquisas e está relacionado à patente BR1120160066138 e PCT/US2015/049673. A tecnologia reúne em um mesmo processo a produção dos blastosporos, escalonamento industrial, formulação, armazenamento e validação biológica, abrindo caminho para o desenvolvimento de novos bioinseticidas comerciais.