Correr 100 metros em menos de nove segundos, disputar uma partida de futebol, executar movimentos de artes marciais, dançar, levantar pesos e, ao mesmo tempo, demonstrar capacidade para trabalhar em fábricas, hotéis ou residências. Esse é o cenário da segunda edição dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, realizada entre os dias 22 e 26 de agosto, em Pequim, na China.
O evento ganhou repercussão internacional nesta semana depois que o robô humanoide Tiangong Ultra percorreu os 100 metros em 8,86 segundos, durante uma semifinal realizada na terça-feira (25). A marca é inferior aos 9,58 segundos do recorde mundial humano estabelecido pelo jamaicano Usain Bolt em 2009.
A comparação, porém, precisa ser entendida dentro de contextos distintos: trata-se de uma máquina especialmente desenvolvida para desempenho mecânico, competindo sob regras próprias para robôs, e não de um recorde homologado no atletismo humano. Ainda assim, o resultado chama a atenção pela velocidade da evolução tecnológica. Na primeira edição dos jogos, em 2025, o Tiangong havia vencido os 100 metros com 21,50 segundos.
Realizados no National Speed Skating Oval, conhecido como “Ice Ribbon” e construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, os Jogos Mundiais de Humanoides cresceram significativamente em apenas um ano. A edição de 2026 recebeu 666 equipes e 2.056 robôs, distribuídos por 51 eventos e 1.301 sessões de competição. Em 2025, haviam participado 280 equipes.
As provas vão muito além das tradicionais corridas. Futebol, levantamento de peso, artes marciais, dança e outras modalidades colocam à prova equilíbrio, coordenação, velocidade, capacidade de decisão e precisão dos movimentos.
Há também desafios baseados em situações reais. Os humanoides precisam realizar atividades relacionadas a serviços domésticos, atendimento, indústria e situações de emergência. Entre os testes estão dobrar roupas, executar tarefas em ambientes semelhantes aos de hotéis e residências e participar de operações ligadas ao combate a incêndios.
Uma das mudanças mais importantes desta edição está justamente na redução da interferência humana. Nos 100 metros, por exemplo, a prova passou a exigir robôs totalmente autônomos. Nos desafios práticos, as regras também estimulam sistemas capazes de identificar o ambiente, tomar decisões e executar tarefas sem controle humano contínuo.
É nesse ponto que os jogos deixam de ser apenas um espetáculo tecnológico. Correr sem cair exige controle de equilíbrio, processamento de informações dos sensores e coordenação dos motores e articulações em frações de segundo. Manipular objetos acrescenta outra dificuldade: mãos robóticas precisam controlar força e posição com precisão.
Mesmo os recordes revelam limitações. Depois de atingir os 8,86 segundos nos 100 metros, o Tiangong Ultra não conseguiu desacelerar normalmente e terminou contra a estrutura de proteção colocada após a linha de chegada. Outros competidores também sofreram quedas durante as provas.
Por trás das corridas e partidas está uma disputa tecnológica de alcance muito maior. Os movimentos desenvolvidos para fazer um humanoide correr, manter o equilíbrio ou recuperar-se diante de uma situação inesperada podem posteriormente ser utilizados em atividades industriais, logística, inspeções, serviços e operações de emergência.
A China transformou a robótica humanoide em uma das áreas estratégicas de sua política industrial. Os jogos funcionam, nesse contexto, como uma grande plataforma pública de testes, permitindo que universidades, centros de pesquisa e fabricantes coloquem seus equipamentos diante de situações que exigem velocidade, autonomia, percepção do ambiente e resistência mecânica.
A evolução observada entre as duas primeiras edições ajuda a dimensionar o ritmo desse desenvolvimento: o número de provas praticamente dobrou, a participação saltou de 280 para 666 equipes e o vencedor dos 100 metros reduziu sua marca de 21,50 segundos, em 2025, para menos de nove segundos em 2026.
A segunda edição termina nesta quarta-feira (26), em Pequim. Além dos resultados esportivos, os dados obtidos nas competições deverão servir para aperfeiçoar sistemas de locomoção, controle, inteligência artificial e manipulação de objetos destinados às próximas gerações de robôs humanoides.