Economia Crédito sob pressão
Bancos reservam R$ 91 bilhões contra calotes e acendem alerta para piora do crédito
Provisões de Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander cresceram 23% no primeiro semestre; agronegócio e famílias já apresentam sinais de maior dificuldade para honrar dívidas
18/08/2026 08h58
Por: João Livi
Juros ainda elevados e avanço da inadimplência levaram os quatro grandes bancos brasileiros a reservar R$ 91,082 bilhões para enfrentar possíveis perdas com crédito no primeiro semestre de 2026. (Foto: Magnific)

Os quatro grandes bancos brasileiros aumentaram de forma expressiva a proteção contra possíveis calotes diante da deterioração do mercado de crédito. Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander destinaram, juntos, R$ 91,082 bilhões para provisões contra devedores duvidosos no primeiro semestre de 2026, crescimento de 23% em relação ao mesmo período do ano passado.

O movimento ocorre em um ambiente no qual os juros permanecem restritivos, apesar do início do ciclo de redução promovido pelo Banco Central. A inflação persistente, os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio e o desequilíbrio das contas públicas aparecem entre os fatores que dificultam um alívio mais rápido das condições financeiras.

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Na prática, juros elevados aumentam o custo das dívidas e pressionam o orçamento das famílias e das empresas. Os bancos, diante da percepção de maior risco, passam a reservar mais recursos para absorver eventuais perdas e adotam maior cautela na concessão de novos financiamentos.

Agro concentra parte da pressão

Uma parcela relevante da deterioração está no agronegócio, setor afetado pela volatilidade dos preços dos insumos, maior endividamento e impactos climáticos. Mas os balanços bancários também começam a revelar dificuldades entre pessoas físicas, especialmente nos segmentos de menor renda.

O Banco do Brasil aparece entre as instituições mais pressionadas pela carteira rural. A inadimplência da instituição encerrou junho em 5,61%, ainda fortemente influenciada pelos atrasos no agronegócio.

Somente no segundo trimestre, o BB registrou R$ 18,5 bilhões em provisões contra calotes, alta de 16,1% na comparação anual, em termos líquidos.

A instituição também identificou deterioração na carteira de pessoas físicas. Nos cartões de crédito, a inadimplência chegou a 14,58%, após aumento superior a 7 pontos percentuais na comparação com o trimestre anterior. Além da presença de produtores rurais também como clientes pessoa física, o banco observou crescimento no reparcelamento de faturas entre um público mais amplo.

Santander também aumenta proteção

No Santander, a inadimplência considerando atrasos superiores a 90 dias atingiu 3,3% em junho, avanço de 0,7 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025.

As despesas com provisões do banco alcançaram R$ 7,7 bilhões no trimestre, crescimento anual de 11,5%. Além das mudanças contábeis, a instituição reconheceu a influência do cenário macroeconômico mais restritivo.

O banco vem alterando o perfil da carteira, direcionando a concessão para linhas consideradas mais seguras e para clientes de maior renda. A expectativa apresentada pela instituição é de que os efeitos dessa estratégia sobre a qualidade do crédito apareçam de maneira mais clara em 2027.

Itaú e Bradesco mostram maior estabilidade

Bradesco e Itaú Unibanco também elevaram suas proteções, mas apresentaram indicadores de inadimplência relativamente mais controlados.

No Bradesco, as linhas de crédito com garantias já representam 61% da carteira. A instituição registrou aumento dos atrasos entre pessoas físicas e também acompanha a evolução dos programas destinados a micro, pequenas e médias empresas com garantia governamental.

O Itaú manteve a inadimplência superior a 90 dias em 1,9% por mais um trimestre. Entre micro, pequenas e médias empresas, o indicador alcançou 2%, com expectativa de novo aumento no terceiro trimestre antes de uma possível estabilização.

Crédito tende a ficar mais seletivo

O crescimento das provisões mostra que as instituições estão aumentando a proteção diante de um cenário considerado mais arriscado. A deterioração de linhas emergenciais e do crédito rotativo também amplia a preocupação do sistema financeiro.

Com o comprometimento da renda das famílias, inflação ainda pressionada e juros elevados afetando empresas e produtores, a tendência apresentada pelos bancos é de maior seletividade na concessão de crédito enquanto os indicadores de inadimplência permanecerem pressionados.

Os números do primeiro semestre colocam, portanto, a evolução dos calotes e das provisões bancárias entre os indicadores a serem acompanhados ao longo da segunda metade de 2026.