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O tacho
Entre o fogo a lenha, o torresmo e a lida no galpão, o velho tacho guarda lembranças de um tempo em que trabalho, família e tradição se misturavam ao redor da mesma chama
14/08/2026 08h00
Por: Gelsiney Schell

O anúncio do tempo vinha pelo rádio.

A voz do locutor atravessava a manhã falando de tempo virando, frente fria descendo do Sul, essas coisas que o homem do campo costumava reconhecer antes mesmo das ondas do AM.

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No sítio, porém, o aviso chegava por outros caminhos: o cheiro mais forte da terra, o vento mudando de lado, o céu baixando devagar sobre os morros ou a dor nos dedinhos do pé do vô.

No galpão, a lida seguia antes de qualquer ordem.

Ari rachava lenha no toco, seco e preciso. De vez em quando, olhava por baixo da aba do chapéu, ajeitava o bigode e acomodava mais um sepo na linha do machado. Nunca parecia ter pressa, mas tampouco desperdiçava movimento.

Perto do fogo, Ceno ajustava o tacho sobre os tijolos. Conferia o equilíbrio da estrutura improvisada, sabendo que um gesto errado podia comprometer o trabalho de um dia inteiro. A camisa de botão já trazia manchas de fumaça e gordura, marcas acumuladas de tantos outros dias iguais.

Mais adiante, Sousa seguia para o chiqueiro em passo firme. Faca na cinta, bombachas folgadas e botas altas, caminhava como quem conhecia cada palmo daquele chão sem precisar olhar para onde pisava.

O resto acontecia no costume.

O serviço não começava — apenas continuava.

O porco já havia sido trazido e permanecia sob o abrigo de lona e madeira. Ali, tudo obedecia à tradição daqueles dias de chuva, aprendida no olho e transmitida sem explicação. Cada gesto encontrava seu lugar, como se o dia estivesse pronto para ser vivido.

O tacho, vazio por um instante, esperava a banha picada.

Depois vinha a gordura, a carne cortada e o som ocupava o ferro: estalo, chiado, fervura.

A fumaça da lenha úmida levantava espessa, entrando nos olhos e impregnando a roupa com o cheiro do trabalho. Ninguém se afastava. Aquilo também fazia parte da tarefa.

Não raro, um corte mais fundo interrompia o compasso — o dedo atingido, o pano improvisado, a pausa breve. Logo depois, tudo retornava ao seu lugar.

A carne seguia sua transformação.

A banha fritava devagar. No centro do tacho, alguns pedaços douravam antes do ponto, apenas para entregar o primeiro gosto do fogo. Ao lado, espetos aguardavam encostados na parede, destinados à brasa.

Ali, o tempo não corria.

Derretia.

O torresmo estalava, dourado, fixando-se mais na lembrança do que nos olhos. Quando a banha chegava ao ponto, era retirada com a concha grande e vertida nas latas alinhadas pelo chão. Passava pelo coador, limpava-se, guardava-se.

O dia virava reserva.

O que restava era separado, prensado, aproveitado.

Nada se perdia.

Ari organizava o reaproveitamento. Ceno ajeitava o que sobrava. Os mais jovens observavam em silêncio, esperando a carne frita como quem espera algo que ainda não sabe explicar.

Esperávamos em volta do tacho como quem aguardava um presente.

Não era apenas o primeiro torresmo.

Era o instante em que os adultos sorriam mais, as conversas se soltavam e o trabalho, por alguns minutos, esquecia que era trabalho.

Talvez fosse por isso que ninguém tivesse pressa naquele momento.

O tacho não preparava apenas comida.

Preparava lembranças.

Cada pedaço de torresmo carregava o cheiro da lenha, o esforço das mãos calejadas e as conversas que ficavam suspensas no ar, junto com a fumaça.

Quando o sol alcançava o alto da manhã, os espetos começavam a pingar sobre a brasa. O cheiro tomava o terreiro e chamava até quem estava longe.

O que não virava chimarrão virava gole curto de cachaça.

Em torno disso vinham o torresmo, a conversa solta e a pausa breve de quem concluía o que precisava ser feito.

Assim, a família inteira ocupava o galpão.

Ao fundo, o rádio seguia ligado, mais baixo agora. A mesma voz continuava falando da chuva que se aproximava, mas já ninguém prestava atenção.

Havia outras certezas naquele lugar.

As latas de banha esfriavam alinhadas junto à parede. O fogo diminuía sob o tacho. A fumaça permanecia presa à roupa, aos cabelos e à memória.

Lá fora, o céu seguia descendo sobre os morros.

E assim o dia se guardava — não no calendário, mas na memória de quem aprendeu cedo que muitas coisas resistem ao tempo.

O cheiro da lenha.

O gosto do torresmo.

A cachaça quente.

O pernil assando lentamente sobre a brasa.

E, no centro de tudo, o velho tacho.

Talvez fosse por isso que, tantos anos depois, ainda bastasse o cheiro do torresmo para trazer aqueles tempos de volta.

Algumas lembranças não desaparecem.

Apenas esfriam.

Como a banha nas latas.

E esperam.


As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.