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Brot, butta e voscht
Memórias da cozinha, do fogão a lenha e da estrada de chão resgatam palavras, cheiros e gestos de uma infância marcada pelo trabalho, pela simplicidade e pela herança cultural das famílias alemãs do Oeste do Paraná
07/08/2026 08h40
Por: Gelsiney Schell
Imagem criada por IA e que retrata o brot, butta e voscht.

Naquele tempo, antes mesmo de o sol descobrir o pátio, havia uma casa inteira que já começava a despertar.

Não era o relógio.

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Era o galo.

Lá pelas cinco da manhã, ainda no escuro, ele esticava o pescoço e soltava o primeiro canto. Bastava aquilo para anunciar que a noite começava, devagar, a perder a batalha.

Ou quase.

Nos dias de geada, nem ele se animava. A grama amanhecia branca, o frio mordia as mãos e fazia até o galo esquecer o próprio ofício. Como não era bobo, permanecia encolhido no poleiro, esperando o sol fazer a parte dele. Só então criava coragem para cantar.

Mas havia alguém que sempre acordava antes.

Era o pai.

Enquanto a casa ainda sonhava, ele já atravessava a cozinha em silêncio.

Colocava alguns gravetos de lenha no fogão, riscava o fósforo e soprava devagar sobre as fagulhas. Primeiro surgia uma pequena chama. Depois outra. Logo o fogo respirava sozinho e a chaleira começava a cantar baixinho.

Era o primeiro som do dia.

Em seguida vinha o rádio.

Ligado bem baixo, quase cochichando, para não acordar a casa de uma vez. Entre um chiado e outro surgia a voz do locutor, como se atravessasse a madrugada para chegar até a nossa cozinha.

Enquanto a água esquentava, o pai ajeitava a erva na cuia.

Preparava o chimarrão sem pressa.

Naquelas manhãs, o tempo parecia esperar por ele.

Depois abria a gaveta do Schrank, retirava um pedaço de fumo de corda e, com o pequeno canivete, começava o ritual de todos os dias.

Tec...

Tec...

Tec...

O fumo caía miúdo sobre a mesa.

Depois vinha o palheiro.

Só então ele levava a bomba aos lábios, puxava o primeiro mate e olhava pela janela embaçada, onde o calor do fogão encontrava o frio da madrugada.

Lá fora, a geada cobria o terreiro como um lençol branco.

O cachorro levantava devagar, espreguiçando-se perto da varanda.

Quando o primeiro passarinho resolvia cantar, parecia pedir licença para o dia nascer.

Enquanto isso, a enxada deslizava sobre a pedra de afiar.

O aço riscava a pedra num compasso conhecido.

Misturava-se ao chiado do rádio, ao estalar da lenha e ao assobio da chaleira.

Hoje penso que toda casa possui uma música.

A nossa era feita de lenha estalando.

De rádio chiando.

De chaleira cantando.

De enxada sendo afiada antes do amanhecer.

Quando o café ficava pronto, a casa despertava de verdade.

Naquele tempo, as casas acordavam juntas.

Muitas nem tinham portas nos quartos. No lugar delas havia cortinas de pano, presas num arame ou num barbante. Bastava uma corrente de vento para balançarem.

Mas cortina não segurava conversa.

Nem riso.

Nem bronca.

Muito menos cheiro.

O perfume do café atravessava todos os cômodos.

A fumaça passeava pela casa.

O rádio chegava a cada canto.

E bastava alguém conversar baixinho para que todos, sem querer, participassem do dedo de prosa.

Enquanto a mãe preparava o Frischtik, bastava abrir o Rumbalzima para a cozinha ganhar outro cheiro.

Ali descansavam as garrafas de sementes, a banha, a farinha e os vidros de conserva.

Havia um perfume de milho seco que parecia morar ali desde antes da casa existir, esperando pacientemente a próxima safra.

Pouco depois das seis, o pai já estava na lida.

Nunca soube dizer qual era sua profissão.

Na verdade, parecia pertencer ao trabalho.

Numa semana levantava um chiqueiro.

Ia de boia-fria.

Na outra consertava um telhado.

Capava um cachaço.

Reformava casas.

Pescava.

Assentava azulejos.

Erguia cercas.

Fazia o que aparecesse.

No interior, quase sempre era o serviço que encontrava o homem.

Lá pelas oito horas chegava a nossa vez.

A mãe cortava um pedaço de Brot, passava uma camada generosa de Butta, colocava um pedaço de Voscht, quando havia, enchia a garrafa de café e dizia apenas:

— Levem o Frischtik para o pai.

(...)

Sem imaginar que, dentro daquela pequena sacola de pano, havia muito mais do que Brot, Butta, Voscht e uma garrafa de café.

Os anos passaram.

A estrada mudou.

O rádio silenciou.

A chaleira deixou de cantar.

A pedra de afiar descansou.

E o pai também.

Mas, às vezes, quando o cheiro do café encontra o da madeira queimando, ainda vejo um menino atravessando a estrada de chão.

Ele leva uma pequena sacola nas duas mãos.

Anda depressa porque acredita que o pai está esperando.

E talvez esteja mesmo.

Só que agora...

...é na memória.

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Palavras da Nossa Casa

As palavras desta crônica não vieram dos livros. Vieram da mesa da cozinha, do fogão a lenha, das conversas entre pais, avós e vizinhos. São expressões preservadas pela memória das famílias descendentes de imigrantes alemães do Oeste do Paraná. Mais do que traduções, carregam um modo de viver.

Brot — pão.

O pão da casa, cortado ainda morno para acompanhar o café da manhã.

Butta — manteiga.

Assim era pronunciada entre nós. Passada generosamente sobre o pão, fazia parte das primeiras horas do dia.

Voscht — linguiça colonial.

Preparada artesanalmente, muitas vezes produzida pela própria família, acompanhava o café da manhã nos dias em que havia fartura.

Frischtik — café da manhã.

Muito mais do que uma refeição. Era o encontro antes da lida, o momento em que o dia começava.

Schrank — armário.

Móvel simples da cozinha onde repousavam utensílios, mantimentos e pequenas lembranças do cotidiano.

Rumbalzima — despensa.

O lugar onde a casa guardava sua abundância: sementes, banha, farinha, conservas, salames e tudo aquilo que sustentava a família entre uma safra e outra.