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Expropriados
Memória, fé e deslocamento se encontram na história de famílias que viram a terra desaparecer sob as águas de Itaipu, mas mantiveram vivo o velho Oeste do Paraná pela força da lembrança
31/07/2026 09h56
Por: Gelsiney Schell

A Cruz entre a água e a terra

Há histórias que não se apagam, as vezes ficam guardadas na memória coletiva.

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Algumas vivem nos livros.

Outras, na lembrança dos filhos.

E existem aquelas que continuam respirando debaixo d'água.

Meu avô Otto carregou uma delas por toda a vida.

Nunca a contou inteira.

As lembranças apareciam como pedaços de madeira que o lago devolve à margem depois de um temporal. Uma frase enquanto enrolava um palheiro de fumo de corda. Outra durante o café com pão de milho. Às vezes, no meio da cuia de chimarrão, interrompia a conversa, prendia os olhos no horizonte e se calava.

Naquele silêncio havia mais história do que em muitas palavras.

As dores nunca são esquecidas. Aos poucos elas aparecem.

No fim da década de 1970, antes mesmo de o lago existir, ele já fazia parte da vida de quem morava no Oeste do Paraná. Nós barrancos do rio Paraná.

A água ainda estava longe.

Mas já ocupava as cozinhas, as varandas, as rodas de conversa depois do culto e as mesas de madeira onde se tomava café antes de clarear o dia.

O rádio de pilha despertava cedo.

Enquanto minha avó alimentava o fogão a lenha, Otto aumentava um pouco o volume.

As notícias corriam nos comentários entre as modas de viola.

Os locutores falavam com entusiasmo sobre a maior hidrelétrica do mundo.

Falavam em progresso.

Em desenvolvimento.

Em um Brasil que crescia.

Otto nunca respondia.

Apenas apertava o palheiro entre os dedos e olhava pela janela.

Hoje compreendo uma lição, para quem vivia da terra, a palavra progresso podia ter o peso de uma despedida.

Os jornais chegavam da cidade dobrados quatro vezes debaixo do braço de algum vizinho.

Nem sempre vinham no mesmo dia.

Mas, quando apareciam, ninguém perguntava pela política ou pelo futebol.

A primeira pergunta era sempre a mesma.

— Saiu alguma coisa sobre Itaipu?

Os homens tiravam o chapéu, aproximavam os bancos e alguém começava a ler.

As palavras eram difíceis.

Homens analfabetos.

Desapropriação.

Reassentamento.

Indenização.

Pareciam escritas para um mundo distante.

Mas bastava levantar os olhos do papel para entender tudo.

Nenhum rosto escondia a preocupação.

Depois do culto, quase ninguém voltava imediatamente para casa.

Os bancos permaneciam ocupados.

O pastor fechava a Bíblia e abria uma pasta de couro cheia de documentos.

Por alguns minutos, o Evangelho dividia espaço com mapas, decretos e medições.

Não havia contradição.

Naqueles dias, a fé e a terra caminhavam juntas.

Rezava-se.

Discutia-se o valor das indenizações.

Cantavam-se hinos.

Depois tentava-se descobrir quem seria o próximo vizinho a desmontar a própria casa.

Foi assim que nasceram as romarias.

Quem as viu de longe talvez tenha pensado que eram manifestações.

Quem caminhou nelas sabe que eram orações em movimento.

Homens levavam enxadas.

Mulheres carregavam crianças.

Velhos seguravam rosários.

Jovens erguiam foices.

Não marchavam para conquistar terras.

Marchavam para não perder as suas.

Lembro-me de um dia.

Eu ainda era menino.

Estava sentado na varanda do sítio quando vi um grupo de homens atravessar a estrada de chão.

Eram muitos.

Talvez quarenta.

Vinham em silêncio.

Homens com chapéu de palha, mulheres com um pano protegendo a nuca do sol.

As botas levantavam pequenas nuvens de poeira... Muitos seguiam de chinelo de dedo.

Nas mãos calejadas brilhavam enxadas e foices gastas pelo tempo.

Para mim, pareciam soldados.

Cheguei a pensar que fossem para uma guerra.

Hoje sei que eram.

Mas a batalha deles não era contra homens.

Era contra o esquecimento.

Olhei para meu avô.

Otto não disse nada.

Baixou lentamente os olhos para as próprias mãos.

Mãos escuras pelo fumo.

Grossas.

Rachadas.

Mãos que conheciam o peso da enxada desde a infância.

Por um instante, tive a impressão de que ele também queria caminhar com aqueles homens.

Se o corpo permitisse.

Se a saúde deixasse.

Talvez levantasse sua velha foice acima da cabeça.

Não para ameaçar.

Mas para mostrar ao mundo que aquelas mãos não defendiam apenas uma propriedade.

Defendiam o lugar onde haviam enterrado os pais.

Onde plantaram as primeiras árvores.

Onde nasceram os filhos.

Onde aprenderam que uma casa vale menos pelas paredes do que pelas lembranças que abriga.

Foi também naquele tempo que começou a correr de boca em boca a história da cruz de Guaíra.

Diziam que dois troncos fincados na terra durante uma oração haviam brotado.

Uns chamavam aquilo de milagre.

Outros, de esperança.

Meu avô nunca discutiu.

Talvez porque soubesse que, quando um povo já perdeu quase tudo, até a esperança precisa criar raízes para continuar viva.

O milagre esperado não deteve a água.

Vieram caminhões carregando casas inteiras.

As cortinas ainda balançavam nas janelas.

Os galhos das roseiras viajavam junto.

As carroças levavam fotografias, santos, sementes de milho, ferramentas e pequenas lembranças que cabiam nas mãos, mas pesavam uma vida inteira.

Depois partiram os vizinhos.

Silenciaram as capelas.

As estradas desapareceram.

As cercas terminaram dentro do lago.

E um pedaço do Oeste do Paraná afundou sem fazer barulho.

Hoje, quando caminho às margens de Itaipu, vejo uma paisagem que muitos chamam de bela.

Eu também a vejo.

Mas enxergo outra, escondida sob ela.

Vejo o velho Otto parado na varanda, o rádio ainda ligado, o palheiro entre os dedos, olhando para um horizonte que já sabia estar condenado.

Às vezes penso que o lago cobriu casas, pomares, estradas e igrejas.

Nunca conseguiu cobrir a memória.

Porque a água sabe esconder a terra.

Mas não aprende a afogar aquilo que continua sendo contado.

Enquanto houver alguém para lembrar de homens como meu avô Otto, o velho Oeste do Paraná continuará respirando, invisível, sob a superfície tranquila do lago.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.