Empreender Indústria Schumacher
Schumacher celebra 25 anos com trajetória que começou em uma oficina mecânica
Indústria fundada pelos irmãos Adair e Gilberto Schumacher nasceu em Nova Santa Rosa, consolidou-se em Marechal Rondon e hoje fornece mais de 800 itens para o mercado de ônibus
30/07/2026 08h03 Atualizada há 3 horas
Por: João Livi
Gilberto Schumacher, Adair Schumacher e Rosani Schumacher relembram os 25 anos da Indústria Schumacher, empresa que nasceu em uma oficina mecânica e hoje fornece mais de 800 itens ao mercado de ônibus.

A Indústria Schumacher completa 25 anos com uma história marcada por empreendedorismo, persistência, inovação e forte ligação familiar. O projeto que nasceu dentro de uma oficina mecânica, em Nova Santa Rosa, tornou-se uma empresa consolidada em Marechal Cândido Rondon, com produtos presentes em diferentes estados do Brasil e também em países da América Latina.

Em entrevista concedida à Revista Especiais - assista em nosso canal do YouTube -, Adair Schumacher, Gilberto Schumacher e Rosani Schumacher relembraram a origem da empresa, os primeiros produtos, as dificuldades financeiras, os projetos que não avançaram, a chegada ao mercado de ônibus e os planos para as próximas gerações.

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A trajetória começou bem antes da indústria. Antes de Nova Santa Rosa, a base de conhecimento técnico dos irmãos passou por Roque Gonzalez, no Rio Grande do Sul, onde a família viveu por anos e onde Gilberto teve contato com princípios fundamentais da mecânica.

Mecânica foi a primeira escola

Gilberto Schumacher recorda que a mecânica foi a grande faculdade dos irmãos. Ele nasceu em Cerro Largo e, aos quatro anos, mudou-se com a família para Roque Gonzalez, cidade onde teve contato com o trabalho que, mais tarde, abriria caminho para a indústria.

Nesse período, uma figura teve papel decisivo: Senno Klimann, já falecido, lembrado por Gilberto como um professor exigente e fundamental. Segundo ele, o relacionamento inicial não foi simples, mas mudou quando compreendeu que Senno queria transmitir conhecimento.

A partir dali, os irmãos passaram a estudar, praticar e aprimorar técnicas de mecânica. Esse aprendizado, construído no dia a dia, criou a base para a futura oficina em Nova Santa Rosa e, depois, para a indústria.

Da oficina ao primeiro produto

Em Nova Santa Rosa, Adair e Gilberto mantinham uma oficina mecânica. Enquanto Gilberto tinha maior experiência com linha pesada, máquinas agrícolas, caminhões e veículos de transporte de animais, Adair vinha da linha leve e foi ampliando seu conhecimento junto ao irmão.

Dentro da oficina, surgiu o desejo de desenvolver um produto próprio. O primeiro projeto foi o Dosat, um dosador de bactericida e desinfetante para vaso sanitário residencial. O produto foi patenteado, mas enfrentou dificuldades de expansão.

A falta de recursos para marketing, somada a ferramentais iniciais ainda limitados, impediu que o Dosat ganhasse escala no mercado residencial. Mesmo assim, o produto abriu uma nova oportunidade.

O ônibus mudou o rumo da empresa

A virada aconteceu quando uma empresa de transporte de Cascavel procurou os irmãos para avaliar se o sistema poderia ser adaptado ao sanitário de ônibus. A empresa enfrentava problemas com odores nos veículos e levou um ônibus até Nova Santa Rosa para que testes fossem realizados.

O produto residencial não se aplicava diretamente ao ambiente veicular. Mesmo assim, Adair e Gilberto enxergaram ali uma oportunidade. A partir dos testes, desenvolveram um kit de adaptação para sanitários de ônibus.

Esse primeiro kit foi instalado em veículos em circulação e, posteriormente, passou a chamar a atenção de outras empresas. Quando a transportadora comprou novos ônibus e pediu que o “kit Schumacher” fosse instalado ainda na montadora, a indústria entrou em uma nova fase.

Chegada a Marechal Rondon

Depois de aproximadamente dois anos atuando em Nova Santa Rosa em estrutura semelhante a uma incubadora, os irmãos vieram para Marechal Cândido Rondon. A empresa se instalou no Parque Industrial, em uma propriedade que permanece como base da indústria.

O primeiro barracão tinha cerca de 100 metros quadrados. Pouco tempo depois, veio o primeiro “puxadinho”, com mais 50 metros quadrados, ampliando em 50% a área produtiva.

A expansão foi gradual. Com o avanço das parcerias e a abertura dentro das montadoras, a Schumacher deixou de fabricar apenas componentes isolados e passou a atuar em diferentes partes dos ônibus.

Mais de 800 itens no mercado

Atualmente, a Schumacher produz mais de 800 itens voltados ao mercado de ônibus. O portfólio inclui sanitários completos, componentes para sanitários, itens de poltrona, bagageiro, movimentação de porta, calefação, cortinamento, sanefas, cilindros, válvulas de controle, válvulas antirretorno, válvulas de bloqueio e outros produtos técnicos.

Adair explica que a meta da empresa é clara: estar presente em cada ônibus produzido no Brasil e na América, seja urbano, rodoviário, micro-ônibus, com sanitário ou sem sanitário.

Segundo ele, a empresa já percorreu cerca de 70% desse caminho, mas ainda busca ampliar a quantidade de peças Schumacher em cada veículo.

Soluções para montadoras

A parceria com montadoras é construída a partir de soluções técnicas. Gilberto explica que o maior valor da Schumacher está em compreender dificuldades do cliente e apresentar respostas que tragam praticidade, economia, eficiência e confiabilidade.

As vendas para montadoras, segundo ele, são muito técnicas. Por isso, a empresa mantém forte estrutura interna de desenvolvimento, engenharia e validação de produtos.

A atuação dos irmãos também se divide de forma complementar. Adair participa mais da concepção, dos desenhos e da modelagem 3D. Gilberto se envolve de maneira mais intensa com protótipos, testes, validações, ferramentas, montagem física e entrada dos itens na linha de produção.

Projetos, riscos e persistência

A inovação também envolve perdas e escolhas. Adair estima que a engenharia trabalhe simultaneamente com dezenas de projetos novos. Nem todos se transformam em produtos. Alguns servem para testar tecnologias, materiais ou processos. Outros ficam guardados para um momento futuro.

A empresa lança, em média, de 80 a 120 novos itens por ano. Além disso, há projetos que exigem grande energia de desenvolvimento, mas acabam descartados ou suspensos.

Rosani Schumacher lembra que, especialmente no início, cada tentativa exigia esforço financeiro relevante. Havia moldes, ferramentas e produtos que não avançavam, mas faziam parte da construção do conhecimento da empresa.

Começo com recursos limitados

A Schumacher não nasceu com grandes investimentos externos. Segundo Adair, a empresa começou com “recurso negativo”, ou seja, com dívidas e muitas limitações.

A confiança de fornecedores foi essencial. Mesmo com dificuldades de pagamento e crédito no limite, parceiros acreditaram no projeto e permitiram que a empresa continuasse.

Um episódio lembrado pelos irmãos mostra a fragilidade dos primeiros anos: Gilberto transportava dentro do carro ferramentas e partes de moldes que valiam muito mais que o próprio veículo. Se fossem perdidos, representariam meses de desenvolvimento e risco direto para a entrega ao cliente.

Pandemia e novos caminhos

Durante a pandemia, os projetos ajudaram a manter a empresa em movimento. Rosani recorda que, naquele período, a equipe dedicou energia ao desenvolvimento de novas ideias. Quando o mercado começou a voltar ao normal, veio o desafio de escolher quais caminhos seguir.

A empresa também precisou aprender a lidar com mudanças globais na cadeia de materiais, especialmente polímeros. Questões internacionais, como alterações no transporte de petróleo e matérias-primas, impactam diretamente os insumos utilizados na indústria.

Por isso, testar novos materiais, tecnologias e alternativas passou a ser parte permanente da estratégia.

Climatize nasceu dentro da Schumacher

Ao longo da trajetória, a Schumacher também desenvolveu projetos que seguiram outros caminhos. Um deles foi a Climatize, empresa ligada à climatização evaporativa para grandes ambientes.

A oportunidade surgiu porque o sistema oferecia climatização econômica para espaços onde o ar-condicionado convencional seria inviável. O projeto avançou, mas demandava grande esforço comercial e técnico, em um mercado diferente do foco principal da Schumacher.

Com o tempo, os irmãos decidiram vender a empresa e concentrar energia no mercado de ônibus, que era a vocação principal da indústria.

Tecnologia e inteligência artificial

A Schumacher também acompanha novas tecnologias, incluindo inteligência artificial. Adair e Gilberto explicam que a aplicação tecnológica precisa considerar o usuário final e os mercados onde o ônibus será utilizado.

Em algumas regiões, soluções muito automatizadas podem dificultar manutenção e operação. Por isso, certos produtos precisam ser mais simples, manuais e robustos.

Ainda assim, a inteligência artificial já começa a contribuir no desenvolvimento de sistemas, materiais e soluções voltadas à eficiência, economia de água, higienização, iluminação, ventilação e redução de ruídos em sanitários.

ISO 9001 e parcerias institucionais

Entre as conquistas da empresa está a certificação ISO 9001. Para Adair, a certificação não significa que a empresa não terá falhas, mas demonstra que possui processos, equipes e ferramentas para identificar problemas, corrigir rotas e buscar qualidade dentro de padrões internacionais.

A Schumacher também mantém parcerias com instituições ligadas ao Sistema Fiep, Sebrae, Senai, IEL e Fundação Araucária.

Segundo os sócios, essas relações contribuíram para o desenvolvimento industrial, a qualificação de processos e o amadurecimento da empresa.

247 colaboradores e nova geração

A Schumacher chega aos 25 anos com 247 colaboradores, considerando matriz e filial. O crescimento da equipe representa uma das principais transformações desde os tempos em que Adair e Gilberto desenvolviam, montavam e testavam os primeiros produtos praticamente sozinhos.

A nova geração também começa a participar da empresa. Nomes como Pietro, Andressa, Renan, Patrícia e Odailton já aparecem em diferentes áreas, como comercial, recursos humanos, administração, engenharia e processos.

Para os fundadores, a sucessão familiar tem espaço para acontecer de forma natural, porque a indústria reúne muitas áreas e possibilidades de atuação.

Empresa familiar com propósito

Rosani destacou a parceria entre Adair e Gilberto ao longo dos anos. Segundo ela, a empresa familiar se manteve sólida porque os irmãos preservaram a unidade nas decisões e não permitiram interferências que comprometessem a relação.

Ela também ressaltou que os produtos sempre nasceram a partir de necessidades reais, com preocupação não apenas pelo cliente final, mas também pelo colaborador, pelo revendedor e por todos os envolvidos na cadeia.

Para Rosani, acompanhar o desenvolvimento dos colaboradores e vê-los conquistando bens, estabilidade e crescimento pessoal também faz parte da história da empresa.

Preparada para os próximos 25 anos

Ao olhar para o futuro, Gilberto afirma que a Schumacher está mais preparada para os próximos desafios. Se os primeiros 25 anos foram construídos com poucos recursos, muita persistência e forte dedicação, a próxima etapa começa com parque de máquinas estruturado, equipe qualificada, parcerias consolidadas e presença no mercado.

Adair resume que os 25 anos são uma data simbólica, mas a empresa comemorou conquistas ao longo de toda a caminhada: cada projeto, cada máquina, cada cliente, cada problema superado e cada compromisso entregue.

Para os fundadores, a Schumacher chega aos 25 anos com maturidade, sucessão em movimento e confiança para continuar avançando no mercado de ônibus.