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O senhor dos segredos
Alguns minutos de conversa com a história viva — 1995
24/07/2026 07h52 Atualizada há 4 horas
Por: Gelsiney Schell

Há dias em que a gente sai de casa sem saber que vai encontrar uma história pelo caminho.

Foi num sábado de 1995.

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Eu havia decidido caminhar da Vila Gaúcha até o centro de Marechal Cândido Rondon. Não tinha pressa. Era uma dessas manhãs em que a gente anda mais para pensar do que para chegar a algum lugar.

O céu estava limpo, de um azul intenso. O vento atravessava as ruas e carregava algumas folhas secas pela Avenida Rio Grande do Sul. A cidade parecia tranquila. Naquele tempo, Marechal ainda tinha um jeito mais sossegado de viver, principalmente nos dias de outono, quando o ar parecia trazer consigo uma espécie de silêncio diferente.

Em alguns pontos, ainda era possível sentir o cheiro do café torrado que vinha da Rua Santa Catarina.

Havia cheiros que pertenciam à cidade.

Cheiros que faziam parte da vida cotidiana e que, com o passar dos anos, foram desaparecendo sem que ninguém percebesse exatamente quando.

Acho que é assim com muitas coisas.

Primeiro deixam de estar presentes.

Depois viram lembrança.

Eu caminhava devagar.

Ao chegar perto da esquina da Rua 7 de Setembro, vi um homem sentado num banco de madeira.

Parecia estar ali havia algum tempo.

Era um homem já de idade, mas havia nele uma serenidade que imediatamente me chamou a atenção. Sorria sozinho, olhando para algum ponto que eu não conseguia enxergar. Não parecia esperar ninguém.

Apenas estava ali.

Me aproximei.

Ele sorriu para mim.

E, nas pequenas cidades do interior, uma conversa às vezes começa antes mesmo que alguém decida iniciá-la. Há uma proximidade que não precisa ser explicada. As pessoas se reconhecem sem se conhecer.

Por alguma razão, parei.

Sentei-me num banco ao lado.

Não sei explicar exatamente por quê.

Talvez porque algumas conversas comecem antes mesmo de a primeira palavra ser dita.

— Bom dia — falei.

Ele respondeu.

E começamos a conversar.

Falamos de coisas simples. Da cidade, do tempo, da vida.

Ele falava devagar. Não parecia ter pressa para terminar nenhuma frase. Às vezes fazia uma pausa e olhava para longe, como se procurasse alguma coisa escondida em algum lugar do tempo.

Havia nele uma tranquilidade que me chamou a atenção.

Depois de algum tempo de conversa, ele me disse seu nome:

— Heribert Joachim-Hans Gasa.

Hans Gasa.

Eu já havia ouvido aquele nome.

E foi naquele instante que percebi quem estava sentado ao meu lado.

Não era apenas um homem descansando num banco de madeira.

Era alguém que carregava consigo uma história que eu ainda não conhecia.

Hans Gasa era alemão. Tinha vivido os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial. Fora paraquedista e combatente do Exército alemão e, segundo os relatos que conheci posteriormente sobre sua vida, estivera em diferentes frentes da guerra, inclusive no Egito.

A guerra havia colocado diante dele coisas que um homem dificilmente esquece.

O frio.

A fome.

O medo.

A distância.

A morte.

Mas aquele homem que estava diante de mim não falava como alguém que desejava impressionar.

Falava com simplicidade.

E talvez tenha sido justamente isso que mais me marcou naquela manhã.

Hans Gasa era uma pessoa inteligente. Daquelas que parecem observar mais do que dizem e que, quando respondem, escolhem poucas palavras. Tinha uma confiança tranquila, uma maneira de conversar que fazia a gente perceber que estava diante de alguém que havia aprendido muito com a vida.

Naquela manhã, ouvi algumas de suas histórias.

Falou da juventude, da guerra, de lugares distantes.

Falou de livros.

Falou também de sua casa.

E, quando começou a falar da casa, percebi que havia alguma coisa diferente.

Ele não falava de uma casa como quem fala de uma construção.

Falava como quem fala de um lugar que fazia parte de si mesmo.

Havia detalhes, espaços, passagens, objetos.

Uma casa construída de um jeito que não era comum.

Uma casa que parecia ter sido pensada para guardar alguma coisa.

Talvez lembranças.

Talvez sonhos.

Talvez segredos.

O tempo passou.

Quando percebi, já era hora de ir.

Ele se levantou.

Nós nos despedimos.

Antes de partir, lembro-me de uma frase que ficou guardada na minha memória:

— Toda cidade tem seus segredos. Basta saber onde sentar e com quem conversar.

Não sei se foram exatamente essas palavras.

A memória, às vezes, guarda o sentido e deixa escapar algumas palavras.

Mas a ideia ficou.

Fiquei mais alguns minutos sentado.

Hans Gasa caminhou em direção à esquina da Rua 7 de Setembro com a Rua Santa Catarina. Talvez fosse simplesmente seguir seu caminho. Talvez procurasse o aroma do café torrado que vinha da rua.

E desapareceu.

Eu continuei ali.

Depois segui meu caminho.

Naquele momento, aquela conversa era apenas uma conversa.

Eu não sabia que, muitos anos depois, voltaria a ela tantas vezes.

O tempo passou.

A vida seguiu seu curso, como costuma seguir, levando pessoas, mudando ruas, transformando casas e apagando lentamente alguns detalhes da paisagem.

Aquela manhã de 1995 ficou guardada em algum lugar da minha memória.

Não pensei nela todos os dias.

Talvez nem todos os anos.

Mas algumas lembranças não desaparecem. Apenas esperam.

E um dia, muitos anos depois, Hans Gasa voltou a aparecer no meu caminho.

Dessa vez, não estava sentado num banco.

Estava dentro de uma casa.

E quem me conduziu de volta até ele foi uma mulher que também dedicou grande parte de sua vida a compreender e preservar a história da nossa região: a professora Lia Dorothea Pfluck.

Lia Dorothea é doutora na área de Geografia e tem uma trajetória ligada ao estudo da ocupação humana, da formação territorial e da história de Marechal Cândido Rondon e de seu entorno. Ao longo dos anos, escreveu livros, produziu artigos e desenvolveu trabalhos voltados a compreender como as pessoas chegaram, ocuparam, transformaram e construíram este lugar.

Na minha visão particular, poucas pessoas conhecem tão profundamente a geografia humana e a ocupação territorial de Marechal Cândido Rondon quanto ela.

Mas, naquela ocasião, eu não a via apenas como pesquisadora.

Via alguém que havia percebido que determinadas histórias precisam ser preservadas antes que o tempo as leve consigo.

Foi nesse contexto que surgiu o projeto de transformar a casa de Hans Gasa em um espaço de memória.

Lia Dorothea esteve envolvida nessa iniciativa ao lado de outras pessoas que também contribuíram para que aquela história pudesse ser preservada, entre elas a professora Lucia Gregory, o professor Valdir Gregory e Dorotéia Gasa, viúva do senhor Gasa.

O objetivo era simples e, ao mesmo tempo, enorme:

fazer com que aquela casa continuasse contando a história de quem havia vivido nela.

Foi assim que aceitei o convite.

E, muitos anos depois daquela conversa na esquina, voltei a percorrer um caminho que, sem que eu pudesse imaginar em 1995, me levaria novamente ao mesmo homem.

Dessa vez, porém, eu não o encontraria sentado num banco.

Eu o encontraria nas paredes.

Nos livros.

Nos objetos.

Nos espaços que havia deixado para trás.

Quando atravessei o portão de ferro, tive a sensação de que estava entrando numa história que havia começado muito antes de mim.

A casa era diferente de tudo que eu conhecia.

Não era apenas uma residência.

Havia detalhes que chamavam a atenção.

Formas.

Espaços.

Passagens.

Objetos.

Cada coisa parecia ter uma razão para estar ali.

Foi durante aquele trabalho que comecei a conhecer melhor o homem com quem havia conversado por apenas alguns minutos.

Eu cursava Letras e Alemão naquela época e fui encarregado de traduzir os títulos de mais de 1.800 livros em alemão que faziam parte do acervo.

Passei horas entre aqueles livros.

Alguns eram antigos.

As páginas carregavam o amarelado próprio do tempo.

Outros traziam marcas silenciosas de uma vida inteira de leitura.

E, pouco a pouco, comecei a perceber que Hans Gasa não havia guardado apenas livros.

Havia guardado uma parte do mundo.

Entre aqueles exemplares, encontrei um livro sobre arquitetura árabe.

E aquilo me chamou muito a atenção.

Porque a casa parecia conversar com aquele livro.

As formas, os detalhes e alguns dos ambientes tinham uma aparência que lembrava aquela arquitetura.

Foi então que comecei a pensar na história daquele homem.

Hans Gasa havia passado pelo Egito durante a guerra.

Tinha conhecido outros lugares.

Outras culturas.

Outras formas de construir.

Talvez tivesse levado consigo algumas daquelas imagens.

Talvez, anos depois, ao construir sua própria casa em Marechal Cândido Rondon, tenha colocado ali um pouco do que havia visto no mundo.

Não posso afirmar que cada detalhe da casa tenha sido inspirado diretamente por suas experiências de guerra ou pelas culturas que conheceu.

Mas, diante daqueles livros e daquela arquitetura, era difícil não estabelecer uma relação.

Para mim, a casa parecia carregar alguma coisa dessas experiências.

Não era apenas arquitetura.

Era memória.

Era uma parte de sua vida transformada em parede, forma e espaço.

A casa parecia ter sido construída com materiais, mas também com lembranças.

No porão havia ainda um ambiente diferente.

Segundo as informações que conheci durante o trabalho de preservação da memória do local, aquele espaço teria sido utilizado, em determinado período, como uma espécie de cassino ou sala de jogos.

Mais tarde, aquele mesmo lugar ganhou outra vida.

Foi danceteria.

Boate.

Discoteca.

Muitas pessoas passaram por ali.

Gerações diferentes.

Pessoas que talvez jamais tenham imaginado a história daquele espaço.

E isso também me fez pensar.

A casa de Hans Gasa havia continuado vivendo.

Mudou de função.

Mudou de público.

Mudou de época.

Mas continuou carregando as marcas de quem a construiu.

Talvez seja assim com algumas casas.

Algumas são apenas lugares onde moramos.

Outras guardam pedaços de quem fomos.

Enquanto eu trabalhava naquele acervo, comecei a descobrir coisas que não imaginava.

Encontrei, por exemplo, um exemplar de Negrinho do Pastoreio, datado de 1906 e escrito em alemão.

Aquilo me chamou muito a atenção.

Um personagem tão ligado à cultura brasileira, escrito em uma língua europeia, dentro de uma casa construída por um alemão, em Marechal Cândido Rondon.

Era uma mistura bonita.

Brasil e Alemanha.

Distância e aproximação.

Memória e cultura.

Em outro ponto do acervo, havia uma coleção relacionada à arquitetura árabe.

E, olhando para aqueles livros e para a própria casa, comecei a compreender melhor o que estava diante de mim.

Hans Gasa havia vivido uma vida que atravessava fronteiras.

A guerra o levou para longe.

A vida o trouxe para o Brasil.

E, em Marechal Cândido Rondon, ele construiu um lugar onde muitas dessas experiências pareciam ter encontrado um espaço para permanecer.

A casa era, de certa forma, uma continuação da própria história daquele homem.

Talvez por isso eu tenha voltado tantas vezes, em pensamento, àquela conversa de 1995.

Naquele dia, eu havia conhecido o homem.

Anos depois, dentro daquela casa, comecei a conhecer a história.

E percebi uma coisa que só o tempo costuma ensinar:

a gente nunca conhece completamente uma pessoa na primeira conversa.

Às vezes, uma vida inteira está escondida atrás de uma conversa de trinta minutos.

Penso também na professora Lia Dorothea.

Talvez não tenha sido por acaso que ela esteve ligada àquele projeto.

Há pessoas que estudam o passado.

E há pessoas que ajudam o passado a permanecer.

Lia Dorothea, para mim, pertence às duas categorias.

Seu trabalho acadêmico está ligado à compreensão da história, da geografia e da ocupação humana da região. Mas, naquele projeto, havia algo que ultrapassava a pesquisa.

Havia a preocupação com a memória.

Porque uma cidade não é feita apenas de ruas e prédios.

Uma cidade é feita das pessoas que passaram por ela.

Dos que chegaram.

Dos que partiram.

Dos que construíram.

Dos que sonharam.

E dos que deixaram alguma coisa para que outros pudessem lembrar.

Hans Gasa deixou uma casa.

Deixou livros.

Deixou objetos.

Deixou histórias.

E outras pessoas, ao reconhecerem o valor daquele legado, ajudaram a impedir que tudo isso se perdesse no silêncio do tempo.

Foi nesse ponto que percebi que minha participação naquele trabalho também tinha um significado que eu não havia imaginado.

Primeiro, encontrei Hans Gasa sentado num banco.

Depois, muitos anos mais tarde, encontrei novamente Hans Gasa dentro de sua casa.

E, entre um encontro e outro, havia passado uma vida.

Talvez seja esse um dos mistérios da existência.

Algumas pessoas entram no nosso caminho por acaso.

E só muito tempo depois descobrimos por que passaram por ali.

Hoje, quando lembro daquela manhã de 1995, não penso apenas no homem que estava sentado naquele banco.

Penso no que eu ainda não sabia.

Eu não sabia que aquele homem havia atravessado uma guerra.

Não sabia que conhecera lugares tão distantes.

Não sabia que havia trazido consigo lembranças de outros mundos.

Não sabia que, anos depois, eu estaria dentro de sua casa, ajudando a organizar parte daquele acervo.

Naquele dia, conheci apenas um homem sentado num banco.

O resto da história veio depois.

Talvez seja por isso que gosto de caminhar.

Porque nunca sabemos o que pode acontecer numa esquina.

Às vezes, encontramos alguém.

Às vezes, encontramos uma história.

E, de vez em quando, encontramos os dois.

Hans Gasa se foi.

Mas ficaram os livros, a casa, as lembranças e aquela conversa curta que, tantos anos depois, ainda permanece comigo.

Talvez esse seja um dos maiores segredos de uma cidade:

a história nem sempre está nos livros.

Às vezes, ela está sentada ao nosso lado.

É preciso apenas parar.