Naquele tempo, tudo o que a gente tinha parecia servir muito bem.
Mas só para o verão.
Nossa casa de tábuas era a mais simples da linha. Quem passava pela estrada talvez enxergasse apenas um telhado gasto, paredes de madeira e um terreiro de chão batido.
Nós enxergávamos outra coisa.
Era a casa mais cheia de crianças.
Mais barulhenta.
Mais viva.
Éramos seis irmãos.
O mais novo mal completara quatro anos.
O mais velho, catorze.
Uma escadinha tão certinha que nem a mãe sabia explicar como Deus resolvera mandar tantos homenzinhos em tão pouco tempo.
No verão, tudo aquilo era nosso mundo.
O potreiro era um campo de futebol.
O estradão virava pista de corrida.
O riacho Apepu era piscina, aventura e pescaria.
A roupa secava no corpo.
As alpargatas duravam.
O frio parecia morar muito longe dali.
Mas o inverno sempre chegava.
E, quando chegava, parecia entrar primeiro lá em casa.
Os dias ficavam mais compridos.
O vento encontrava as frestas das tábuas... já conhecia o caminho.
Às vezes eu via os olhos da mãe vermelhos.
Durante muito tempo pensei que fosse por causa da fumaça do fogão.
Hoje sei que não era.
Numa dessas manhãs geladas, ela levantou antes de todos.
No canto da cozinha havia um monte de palha fina de milho, guardada da colheita.
Sentou-se perto do fogão.
Pegou o canivete.
E começou a desfiar a palha, fio por fio.
Sem pressa.
Sem dizer uma palavra.
O fogão aquecia a cozinha.
Nós nos apertávamos ao redor dele, roubando um pouco daquele calor antes de sair.
Cada um segurava seu copo de leite.
As calças, de tanto crescerem as pernas, terminavam na canela, quase perto dos joelhos.
Nos pés, alpargatas gastas pelo tempo.
O Yussy, o mais velho, não tinha nem isso.
Naquele dia, iria descalço.
Saímos os quatro maiores para a escola.
A estrada de barro ainda amanhecera branca de geada.
O frio mordia os pés.
O vento fazia os dentes baterem.
Eu olhava para o Yussy e tinha a impressão de que ele estava mais perto de voltar para casa do que de chegar no Grupo Escolar.
Mas ele continuava andando.
Passo por passo.
Quando chegamos, a professora já esperava na porta.
Olhou primeiro para nós.
Depois para os pés do Yussy.
Ficou em silêncio por um instante.
Mandou que ele os lavasse.
Em seguida trouxe um pedaço de pelego velho.
Colocou-o sobre o assoalho da classe.
Pediu que ele descansasse os pés ali até voltarem a esquentar.
A bondade apenas aqueceu.
Quando a aula terminou, corremos de volta para casa.
A fome já anunciava a polenta com leite que quase sempre nos esperava.
Mas, naquele dia, havia outra surpresa.
Enquanto estávamos na escolinha, a mãe não descansara um minuto.
A palha de milho já não era mais um monte espalhado perto do fogão.
Agora morava dentro de um colchão de brim.
Ela costurara o tecido, enchera cada espaço com a palha desfiada e colocara tudo sobre a cama.
Era simples.
Fazia barulho quando alguém se mexia.
Tinha cheiro de milho seco.
Mas era novo.
Era quente.
E, naquela casa, isso era um luxo.
A mãe olhou para o Yussy e sorriu daquele jeito discreto que só as mães conhecem.
Aquele colchão era dele.
Naquele tempo, não havia dinheiro para comprar quase nada.
Mas havia mãos capazes de fabricar conforto.
Hoje compreendo que minha mãe não podia mudar o inverno.
Não podia comprar sapatos.
Não podia impedir a geada.
E por vezes não conseguia segurar as lágrimas.
Mas, com um canivete, um punhado de palha de milho e um dia inteiro de trabalho, ela conseguiu fazer uma coisa extraordinária.
Fez o inverno do filho doer um pouco menos.
Naquela noite, meu irmão dormiu aquecido.
Acho que minha mãe também.