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O ritual do “chuveiro de balde”
Crônica resgata o tempo em que o banho começava no paiol, passava pelo fogão a lenha e terminava no velho chuveiro de balde, entre frio, risadas e cuidado de mãe
03/07/2026 08h02 Atualizada há 3 horas
Por: Gelsiney Schell

Naquele tempo, tomar banho não era abrir um registro.

Era um ritual.

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E todo ritual começava muito antes da primeira gota tocar a pele.

Logo depois do almoço, quando o sol ainda passeava pelo terreiro, a mãe já distribuía a primeira tarefa da tarde.

— Piazada... vão encher o Holzkasten.

A caixa de lenha, encostada ao lado do fogão, nunca podia ficar vazia.

No inverno, lenha era muito mais do que combustível.

Era água quente.

Era café.

Era pão.

Era banho.

Era o calor da casa.

Então a piazada corria até o paiol.

Cada um voltava abraçado a um feixe de achas de angico, guajuvira, peroba ou da madeira que houvesse.

As lascas mais finas eram separadas para despertar o fogo.

Os cepos mais grossos ficavam guardados para fazê-lo resistir à noite.

Enquanto isso, o fogão já respirava.

Primeiro um estalo.

Depois outro.

Logo as chamas lambiam a chapa de ferro.

A chaleira começava a cantar baixinho.

Era um som tão comum que ninguém lhe dava importância.

Era ela quem marcava o ritmo da casa.

Alguns fogões já traziam um reservatório de água na lateral.

Bastava o fogo ganhar força para que, lentamente, ela também se aquecesse.

Era dali que o vô tirava a água para lavar os pés.

Sentava-se num banquinho de madeira já gasto pelo tempo.

Colocava uma bacia de alumínio no chão.

Misturava um pouco de água fria.

Depois mergulhava os pés devagar, fechando os olhos por alguns instantes.

Talvez estivesse apenas espantando o frio.

Talvez descansando o peso de um dia inteiro de lavoura.

Nunca perguntei.

Naquele tempo, a gente aprendia olhando.

Enquanto o vô aquecia os pés, nós pensávamos em outra coisa.

O banho.

Ou, mais exatamente...

na coragem de enfrentar o banho.

Porque no verão aquele quartinho de tábuas era quase uma brincadeira.

Mas no inverno...

Ah...

No inverno era outra história.

O vento encontrava as frestas como quem conhecia cada canto daquelas paredes.

Entrava sem pedir licença.

A água quente escorria pelas costas.

O frio beliscava as costelas.

O corpo nunca sabia se estremecia de calor ou de frio.

No centro daquele pequeno banheiro reinava o velho chuveiro de balde.

Alguns chamavam de chuveiro de campanha.

Para nós, sempre foi apenas o chuveiro de balde.

Um grande balde de zinco, suspenso por uma corda grossa.

Na saída da água, uma pequena ducha espalhava o banho sobre quem estivesse embaixo.

Na parede havia três pregos.

O mais alto servia para os pequenos.

O do meio para quem já estava crescendo.

O mais baixo era do pai.

Bastava mudar a corda de um prego para outro.

O chuveiro crescia junto com a família.

A mãe chegava carregando uma chaleirada de água fervendo.

Misturava com a água fria recém-tirada do poço.

Mexia devagar.

Experimentava a temperatura com a ponta dos dedos.

Nunca errava.

Parecia conhecer o calor da água do mesmo jeito que conhecia a temperatura da testa de um filho.

Então começava a fila.

Primeiro os menores.

Às vezes dois dividiam o mesmo banho.

Depois vinham os maiores.

O pai.

E, como quase sempre acontecia naquelas casas, a mãe ficava por último.

Talvez porque ainda precisasse secar uma criança.

Vestir outra.

Esquentar mais uma chaleira.

Ou simplesmente porque tinha o estranho costume de deixar a si mesma sempre para depois.

Ninguém perguntava.

Era apenas o jeito da casa.

No chão quase sempre havia uma grande bacia de alumínio.

A água que caía do chuveiro não podia ser desperdiçada.

Servia para enxaguar os pés.

Dar banho no menorzinho.

Lavar um pano.

Naquele tempo, água não era apenas um recurso.

Era fruto de trabalho.

Depois que o sol desaparecia atrás das árvores, acendiam-se a lamparina, o lampião ou o liquinho.

A luz amarela tremia sobre as tábuas do banheiro.

Parecia que o fogo também tomava banho com a gente.

Do lado de fora, a noite crescia.

Lá dentro, ouviam-se apenas o barulho da água caindo, as risadas das crianças e a voz da mãe chamando o próximo.

Havia também uma regra silenciosa.

Banho demorado era perigoso.

A água acabava.

E, quando isso acontecia, sempre aparecia alguém saindo da casinha com espuma atrás das orelhas.

A mãe ria primeiro.

Depois vinha a bronca.

— Chega! Amanhã vocês terminam esse banho!

E a casa inteira caía na risada.

O curioso é que o banho nunca começava quando alguém abria o registro do balde.

Começava muito antes.

No paiol.

Na lenha empilhada ao lado do fogão.

Na água puxada do poço.

No fogo que despertava devagar.

Na chaleira que começava a cantar.

Nas mãos da mãe acertando a temperatura sem nunca errar.

Na espera silenciosa de quem ainda não era a sua vez.

Quando o último saía da casinha, já com os cabelos cheirando a sabão, o fogo ainda crepitava na cozinha.

A bacia de alumínio permanecia no chão.

A toalha passava de uma mão para outra.

Alguém baixava o balde.

Outro empilhava mais um feixe de lenha para a manhã seguinte.

Lá fora, a noite tomava conta do terreiro.

Dentro da casa, o banho terminava muito antes de cair a última gota.