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Copa do Mundo... 1986
Na pequena casa de Seu Antônio, a Copa de 1986 coube numa televisão de 14 polegadas, numa janela aberta e no silêncio que ficou depois dos pênaltis
26/06/2026 08h08
Por: Gelsiney Schell

Na casa do Antônio, gritos eram comuns entre a piazada. Em dia de jogo, porém, eram parte da casa.

Havia a mesa de fórmica, as cadeiras de palha cansadas, o copo de vidro grosso, a toalha com desenhos de frutas já meio desbotada cobrindo parte da mesa, com cheiro de gente e de tarde de jogo.
E os piás eram bons de grito — grito que atravessava a janela e se espalhava pela rua como aviso: hoje o Brasil joga aqui em casa.

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A janela da sala estava escancarada para o mundo. Quatro piás se penduravam do lado de fora, espremidos entre parede e esperança, montados em um cavalete de obra, tentando arrancar de uma televisão P/B de 14 polegadas um pedaço do destino. A imagem vinha chuviscada, trêmula, como se os jogadores corressem dentro de um sonho mal ajustado. Em cima da TV, um pedaço de Bombril na antena sustentava mais do que o sinal. Sustentava o país.

Volta e meia alguém mexia nele, como se o mundo pudesse ser alinhado no braço.

O Brasil começou sem aviso.

1 a 0 aos 17 minutos.

A sala levantou inteira.

Copos, mãos, vozes, cadeira raspando no chão. Os piás quase caíram da janela. A alegria não cabia. E por isso transbordava.

Só o Seu Antônio não seguia o movimento.

Sentado no canto, caipirinha na mão, observava como quem já viu esse tipo de luz apagar. Não comemorava. Não antecipava nada. O jogo, para ele, era sempre uma coisa que podia mudar de humor sem pedir licença.

Aos 40 do primeiro tempo, Platini empatou.

O ar passou pelas cortinas da porta do quarto.

Não houve reação imediata. Só um intervalo no corpo da sala, como se algo tivesse sido deslocado sem aviso.

No intervalo, a casa seguiu.

Q-Suco. Cuca. Bergamota aberta na unha. Talheres batendo no vidro. A porta do banheiro abrindo e fechando. A antena sendo ajustada de novo, sem convicção. A imagem continuava instável, como se também hesitasse.

Voltaram.

Segundo tempo.

Pênalti.

Branco caiu. O juiz apontou.

Alguém disse:

— Vai, Zico.

Mas já não era ordem.

Era tentativa.

Zico bateu.

Errou.

O nome de Zico ficou no meio da sala. O locutor lamentou o desperdício.

Depois disso, nada se organizou de novo. As vozes baixaram. Os objetos perderam função. O açúcar do suco grudou no fundo do copo. O tempo ficou sem borda.

Prorrogação.

O jogo continuava.

E então vieram os pênaltis.

Sócrates.

Errou.

Júlio César.

Errou.

A França eliminou o Brasil.

O som acabou antes da imagem.

A televisão ficou acesa, sem destino.

Os piás desceram da janela sem pressa. Sentaram no chão, afastados. Sem olhar uns para os outros. A infância perdeu uma medida que não sabia que tinha.

O Seu Antônio levantou.

Colocou o copo na pia.

Pegou os apetrechos de pesca.

A bicicleta o esperava como sempre esperam as coisas que não perguntam.

Saiu.

Sem explicação.

Rua abaixo, devagar.

Ficou a casa.

A janela aberta.

A televisão ainda acesa.

Os piás no chão.

Eu fiquei sob a bergamoteira.

O vento passava sem esforço. A grama seguia igual. Mas algo havia saído do lugar sem fazer barulho suficiente para ser ouvido.

Na sala da pequena casa, pela janela aberta, ainda se via o Bombril preso à antena, como se sustentasse sozinho o resto daquela tarde.