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Porto Mendes: a praia que nasceu antes da água
Entre lembranças de infância, bicicletas, tratores e o avanço das águas de Itaipu, a crônica revisita o nascimento de Porto Mendes como praia e revela as despedidas silenciosas que ficaram submersas sob o novo lago
19/06/2026 09h56
Por: Gelsiney Schell

 

Descemos de bicicleta numa manhã que parecia comum — dessas que começam sem planos e só mais tarde o tempo revela como fundadoras.

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Meu pai pedalava com a serenidade de quem conhecia cada curva dos caminhos que desciam para os barrancos do rio. Eu seguia na garupa, pequeno demais para compreender o mundo, grande o suficiente para senti-lo. A estrada levantava poeira fina, e o vento batia no rosto como se quisesse guardar aquele instante antes que desaparecesse.

Íamos ao sítio do tio da minha mãe, na baixada próxima ao Rio Paraná. Ali a terra tinha cheiro antigo, de mato vivo, de promessa sob o silêncio das lavouras.

Foi então que vimos seu Renato.

Ele conduzia o pequeno trator Tobata com paciência quase solene, riscando a terra vermelha como quem escreve sobre o chão. Ergueu a mão num aceno breve. Seguimos atrás, porque algo naquele gesto parecia anunciar mudança.

Os adultos conversavam.

Falavam de um lago.

Diziam que a água subiria. Que casas, árvores, cercas, estradas e histórias inteiras ficariam trinta, quarenta metros abaixo da superfície.

Eu tentava imaginar.

Mas o mundo ainda era definitivo.

Um saco de bergamotas balançava no guidão, espalhando perfume cítrico pelo ar quente do dia. Hoje sei: era o último resto de um tempo prestes a terminar.

Quase chegando, vimos homens trabalhando no meio do roçado.

Construíam um atracador.

Caminhões despejavam areia em montes enormes.

Areia.

No coração do interior.

Longe do mar.

Longe até do próprio rio.

Uma praia surgia onde não havia água.

Na lógica da infância, era quase impossível: homens tentando inventar o mar sobre a terra firme.

Dias depois, numa tarde de sol recém-nascido após as chuvas, descemos a pé pela rua Artur Bernardes. Passamos pelo pavilhão da igreja, pelo moinho silencioso, até os pés de goiabeiras.

E então vimos.

A montanha de areia.

Corremos.

Toda infância corre quando o impossível ganha forma.

A chuva havia criado pequenas lagoas mornas entre os montes — piscinas improvisadas, aquecidas pelo sol de setembro, talvez outubro. Mergulhamos sem pensar, rindo, enlameados de alegria.

Brincávamos dentro do futuro.

Pouco depois, o lago começou a nascer.

Primeiro como rumor.

Depois como presença.

As águas avançavam lentas e seguras, obedecendo a um destino antigo. Barcos resgatavam animais silvestres: cobras em caixas, macacos assustados, pequenos roedores tremendo enquanto o mundo desaparecia atrás deles.

O campo do Sempre Verde virou pista de pouso. Helicópteros rasgavam o céu, levantando poeira e capim. Vozes, motores, correria.

Durante dias, parecia guerra.

Não uma guerra entre homens —
mas entre o passado e o porvir.

Até que o movimento cessou.

E ali estava ele.

O lago.

Água turva, avermelhada pela terra submersa, pesada de memória. Ondas quebravam onde antes passavam bicicletas e caminhões. Balsas cruzavam lentamente aquele território recém-nascido, como se ainda não confiassem no próprio lugar.

O Oeste havia mudado.

No Dia das Crianças de 1984, Porto Mendes era outro mundo. A avenida tomada por carros, o camping cheio, famílias chegando para ver a novidade: uma praia no interior do Paraná.

A praia que nasceu antes da água.

Perto dali, um caminhão vendia melancias abertas ao sol. O cheiro doce se misturava ao calor, às risadas, ao espanto diante do novo.

Tudo parecia começo.

Depois do almoço, um rapaz decidiu nadar até a pequena ilha de pedras.

Riu.

Saltou.

Desapareceu.

A alegria virou silêncio. Chamados atravessaram a areia. Olhos fixos na água. Espera. Medo.

Até que o encontraram.

Deitado na praia recém-inventada.

Ali eu vi a morte.

O choro se espalhou pela multidão. Adultos buscavam palavras que não existiam. Eu compreendi, sem nomear:

todo nascimento carrega despedidas invisíveis.

O lago trouxe progresso, movimento, novas histórias. Mas sob suas águas ficaram quintais, caminhos, árvores frutíferas e vozes inteiras vivendo apenas na lembrança de quem as conheceu.

Hoje, quando o vento passa sobre o Lago de Itaipu e desenha pequenas ondas, poucos imaginam que ali existiram estradas de bicicleta, tratores abrindo caminhos e crianças correndo antes da água chegar.

Mas eu sei.

Porque pedalei naquele chão.

E vi o mundo desaparecer —
para nascer outra vez no mesmo lugar.