O mercado financeiro espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie nesta quarta-feira (17) um novo corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, levando os juros básicos para 14,25% ao ano. A expectativa, porém, vem acompanhada de cautela crescente entre economistas, que já consideram a possibilidade de pausa no ciclo de queda a partir da reunião seguinte, em agosto.
A combinação entre inflação mais pressionada, piora nas expectativas, expansão fiscal e volatilidade internacional causada pela guerra no Oriente Médio tornou o cenário mais desafiador para o Banco Central. Nesse ambiente, analistas avaliam que a autoridade monetária pode endurecer o tom do comunicado e sinalizar maior prudência nas próximas decisões.
Desde março, quando iniciou a flexibilização monetária, o Copom reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, com dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. Caso o movimento seja interrompido em agosto, o ciclo atual poderá figurar entre os menores períodos de queda de juros da história recente.
Um dos principais pontos de atenção está nas expectativas de inflação. Dados do boletim Focus divulgados na segunda-feira (15) indicam afastamento das projeções para o IPCA em relação ao alvo de 3%.
Para este ano, a estimativa passou de 5,11% para 5,30%, acima do teto da meta, de 4,5%. Para 2027, horizonte observado pelo Copom em razão dos efeitos defasados da política monetária, a projeção subiu para 4,10%, ante 4% quatro semanas antes. A expectativa para 2028 também avançou, de 3,65% para 3,68%.
Para economistas, esse movimento reduz o espaço para novos cortes e pode obrigar o Banco Central a reforçar a mensagem de cautela.
O acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para reabrir o estreito de Hormuz foi recebido com cautela por parte do mercado. Embora o entendimento tenha perspectiva positiva, economistas avaliam que a incerteza geopolítica permanece elevada e não deve, sozinha, orientar a decisão do Banco Central.
A volatilidade externa também se refletiu nos juros futuros e no câmbio. A cotação do dólar considerada pelo Banco Central no encontro anterior foi de R$ 5, enquanto a tendência para a reunião desta quarta-feira é de R$ 5,10.
A depreciação cambial reduz o alívio sobre as projeções de inflação e deixa de compensar parte da deterioração observada em outras variáveis. Para analistas, esse quadro ajuda a explicar por que o Banco Central pode evitar sinalizações de continuidade automática dos cortes.
Outro fator que pesa sobre o cenário é a resiliência da atividade econômica, impulsionada por medidas fiscais e parafiscais anunciadas pelo governo federal.
O chamado pacote de estímulos inclui ampliação de linhas de crédito para pessoas físicas, como caminhoneiros, microempreendedores individuais, estudantes, taxistas e motoristas de aplicativos, além de empresas de setores como habitação, indústria e agronegócio.
Segundo Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio e conselheiro da Jubarte Capital, o gasto adicional de R$ 215 bilhões gera impulso superior a 1 ponto do PIB na atividade econômica, em direção oposta ao esforço do Banco Central para conter a inflação.
Para o economista, a expansão fiscal limita a efetividade da política monetária e pressiona ainda mais a condução dos juros.
A XP também aponta a reaceleração da demanda como fator de preocupação. A estimativa é de impacto potencial de 1,5 ponto percentual sobre o crescimento anual do PIB.
Caio Megale, economista-chefe da XP, avalia que a inflação está mais pressionada por fatores que vão além da guerra no Oriente Médio. Entre eles estão custos de insumos ligados à tecnologia e à inteligência artificial, além do risco de um El Niño de fortes proporções, que pode afetar a produção de alimentos no segundo semestre.
Para Megale, a combinação de inflação mais resistente, estímulo fiscal, câmbio menos favorável e choques externos reduziu o espaço para cortes adicionais da Selic neste ano.
A decisão desta quarta-feira será acompanhada não apenas pelo tamanho do corte, mas principalmente pelo comunicado do Copom.
Economistas avaliam que o Banco Central pode evitar declarar explicitamente o fim do ciclo de queda, mas deve ajustar a linguagem para indicar que as próximas decisões dependerão de reavaliação do cenário.
Uma das possibilidades é a retirada de referências aos próximos passos da calibração dos juros, o que sugeriria maior chance de pausa em agosto.
Mesmo com o corte esperado, a Selic permanecerá em patamar elevado, de 14,25% ao ano, refletindo a dificuldade de convergir a inflação para a meta em ambiente de incerteza doméstica e externa.
Para parte do mercado, diante das projeções atuais de inflação e do volume de estímulos colocados na economia, os juros dificilmente cairão abaixo de 14% no curto prazo.
O encontro do Copom, portanto, deve marcar uma etapa decisiva do ciclo de flexibilização monetária. Mais do que a redução esperada, o foco estará na sinalização sobre até onde o Banco Central ainda vê espaço para cortar juros sem comprometer a trajetória da inflação.