Empreender Gestão
Pressão no comando acende alerta sobre saúde mental das lideranças brasileiras
Levantamento da Conquer In Company mostra que 70% dos líderes já pensaram em deixar o cargo por impactos emocionais, enquanto empresas ainda tratam a capacitação de gestores como baixa prioridade
15/06/2026 08h38
Por: João Livi Fonte: Conquer In Company
Estudo da Conquer In Company aponta que 70% dos líderes brasileiros já pensaram em deixar o cargo por impactos na saúde mental. (Foto: Magnific)

A rotina de quem lidera equipes no Brasil está cada vez mais marcada por pressão constante, acúmulo de responsabilidades e desgaste emocional. Um estudo divulgado pela Conquer In Company, unidade de treinamentos corporativos da escola de negócios Conquer, revela que 9 em cada 10 lideranças brasileiras trabalham sob pressão no dia a dia.

Entre os entrevistados, 44,6% classificam essa pressão como alta ou extrema, resultado de fatores como excesso de demandas, dificuldade de equilibrar estratégia e operação e necessidade de lidar simultaneamente com pessoas, metas, conflitos e mudanças organizacionais.

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O levantamento ouviu 750 profissionais, sendo 400 líderes, entre coordenadores, supervisores, gerentes e demais cargos de gestão, além de 350 profissionais de RH de diferentes empresas, setores e regiões do país.

Sobrecarga ameaça permanência nos cargos

Os impactos da pressão já aparecem de forma direta na saúde mental das lideranças. Segundo o estudo, 57% dos respondentes relatam cansaço e esgotamento, enquanto 53% apontam dificuldade para se desconectar do trabalho.

O dado mais expressivo é que 70% dos líderes entrevistados já consideraram abandonar o cargo em busca de mais bem-estar e qualidade de vida.

A sobrecarga tem origem em responsabilidades centrais da função. Quando questionados sobre os pontos que mais pesam na rotina, os líderes apontaram, em primeiro lugar, desenvolver pessoas e gerenciar conflitos, com 58%, mesmo índice registrado para a dificuldade de conciliar estratégia e operação. Lidar com mudanças constantes aparece em seguida, citado por 44% dos entrevistados.

Falta tempo e estrutura para liderar pessoas

A tarefa de desenvolver pessoas, considerada uma das principais responsabilidades de quem ocupa cargo de gestão, também aparece como uma das maiores fontes de pressão.

Entre os líderes que relataram dificuldades nessa frente, 20,9% citaram falta de tempo para olhar para o próprio time. Outros 17,1% apontaram ausência de ferramentas e processos adequados por parte da organização, enquanto 15,6% mencionaram o baixo engajamento da equipe.

Na prática, a combinação entre excesso de demandas e falta de suporte transforma a liderança em uma posição de alto desgaste, especialmente em ambientes onde o gestor precisa executar, planejar, resolver conflitos e desenvolver pessoas ao mesmo tempo.

Muitos chegam à liderança sem preparo

Além da pressão cotidiana, o estudo aponta uma lacuna estrutural na formação dos gestores. 78% dos líderes afirmaram ter assumido o cargo sem formação suficiente, aprendendo a liderar na prática, diante dos próprios desafios do dia a dia.

A falta de preparo também aparece em situações de mudança. Quase 9 em cada 10 líderes admitiram conduzir processos de transformação sem clareza com certa frequência.

Para 63% dos líderes, a capacitação de gestores ainda é tratada como baixa prioridade nas empresas onde atuam.

A percepção é reforçada pelos profissionais de Recursos Humanos. Entre os RHs ouvidos, 58,4% reconheceram que o investimento na formação de lideranças é inexistente ou muito baixo em suas organizações.

Empresas reconhecem problema, mas avançam pouco

A pesquisa também mostra que a dificuldade de desenvolver líderes afeta diretamente a capacidade das empresas de sustentar crescimento, mudanças e equipes saudáveis.

Mais da metade dos profissionais de RH, 54,1%, avaliam que os líderes de suas organizações atendem apenas de forma moderada às exigências do cargo. Isso significa que conseguem lidar com demandas rotineiras, mas apresentam limitações em situações de maior complexidade.

Outros 34,6% classificam essa capacidade como baixa ou muito baixa, indicando dificuldades mais significativas para acompanhar as responsabilidades de uma posição de liderança.

Segundo Giovana Chimentão, diretora de Educação da Conquer In Company, ainda existe no mercado uma percepção equivocada de que bons profissionais se tornam, automaticamente, bons líderes.

“A liderança, no entanto, está longe de ser um talento inato: é uma competência construída. Desenvolver pessoas, lidar com a pressão, conduzir mudanças e dar direcionamento a equipes exige preparo, prática e evolução contínua. Quando a preparação não acompanha o aumento das responsabilidades, o desgaste e a sobrecarga acabam se tornando inevitáveis”, afirma.

Novas gerações resistem à gestão

O cenário de pressão e desgaste também ajuda a explicar a resistência de parte das novas gerações em assumir posições de liderança.

O material cita uma pesquisa da consultoria Robert Walters, segundo a qual 72% dos profissionais da geração Z preferem crescer como colaboradores individuais a se tornar gestores.

A tendência reforça um alerta para as empresas: cargos de liderança sem suporte, formação e equilíbrio podem se tornar menos atrativos para profissionais que priorizam saúde mental, autonomia e qualidade de vida.

Capacitação precisa sair do discurso

Para Giovana Chimentão, os dados mostram que as empresas já compreenderam a importância de formar gestores mais preparados, mas ainda enfrentam dificuldade para transformar essa compreensão em prioridade prática.

“Quando esse apoio fica em segundo plano, os impactos aparecem diretamente na dinâmica das equipes, no clima organizacional e na capacidade das empresas de sustentar crescimento e mudanças de forma saudável”, destaca.

A pesquisa indica que a liderança precisa ser tratada como competência estratégica, não apenas como consequência de uma promoção ou reconhecimento técnico.

Pressão exige resposta corporativa

O levantamento da Conquer In Company coloca em evidência um desafio crescente no ambiente corporativo brasileiro. Líderes sobrecarregados, sem preparo adequado e com baixa estrutura de apoio tendem a sofrer mais desgaste emocional e a impactar diretamente o desempenho das equipes.

Ao mesmo tempo, empresas que desejam crescer de forma sustentável precisam investir em formação, ferramentas, processos, clareza de papéis e suporte contínuo aos gestores.

A pressão no trabalho, quando não acompanhada de preparo e apoio institucional, deixa de ser apenas um problema individual e passa a representar um risco para a saúde organizacional.