O Paraguai vem ganhando espaço como um dos principais destinos de internacionalização para empresas brasileiras que buscam eficiência produtiva, redução de custos e acesso mais competitivo a mercados externos. O movimento é impulsionado, sobretudo, pelo Regime de Maquila, modelo que permite a produção de bens e a prestação de serviços no país com foco em exportação.
O regime oferece vantagens relevantes, como tributo único de 1% sobre o valor agregado nacional ou sobre o valor da fatura de exportação, conforme a regra aplicável, além da suspensão de tributos aduaneiros na importação de insumos vinculados ao programa aprovado. Segundo informações oficiais do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, o sistema é voltado à geração de emprego formal, aumento das exportações e atração de investimentos produtivos.
Apesar do cenário favorável, a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai (CCBP) alerta que a decisão de operar no país vizinho exige planejamento estratégico, análise tributária completa e presença operacional bem estruturada. Quando a expansão é conduzida apenas com foco nos incentivos fiscais, empresas podem enfrentar multas, atrasos, entraves alfandegários e paralisações que reduzem ou anulam os ganhos esperados.
Para orientar investidores e lideranças corporativas, a CCBP mapeou os cinco erros mais comuns na abertura de operações no Paraguai.
1. Ignorar a logística e os custos de frete
Um dos equívocos mais recorrentes é escolher a localização da unidade produtiva antes de avaliar rotas, prazos de transporte, custos de escoamento e proximidade com fornecedores, portos secos, centros de distribuição e fronteiras.
No modelo de maquila, a competitividade depende não apenas do custo de produção, mas também da eficiência da cadeia logística. Uma economia tributária pode ser rapidamente consumida por fretes mal dimensionados, atrasos na entrega ou gargalos no retorno da mercadoria ao mercado de destino.
2. Focar apenas nos impostos e esquecer o ciclo completo da operação
O Regime de Maquila é atrativo, mas não elimina a necessidade de um planejamento tributário de ponta a ponta. Embora existam benefícios no Paraguai, produtos reimportados pelo Brasil podem estar sujeitos à incidência de tributos brasileiros, como Imposto de Importação, IPI, ICMS e PIS/Cofins, conforme o caso.
Por isso, a análise deve considerar todo o fluxo: envio de insumos, industrialização, exportação, reimportação, distribuição e venda final. Sem essa visão integrada, a empresa corre o risco de superestimar a economia e comprometer a margem real da operação.
3. Tentar gerir a operação à distância
A internacionalização exige presença local. Segundo a CCBP, operações conduzidas exclusivamente a partir do Brasil tendem a enfrentar mais dificuldades de controle, cumprimento de prazos, gestão de equipe, qualidade produtiva e conformidade regulatória.
A presença de gestores de confiança em território paraguaio é essencial para acompanhar a rotina da fábrica, responder rapidamente a imprevistos e garantir que a operação siga os padrões técnicos, legais e comerciais definidos pela matriz.
4. Escolher o tipo societário sem avaliar o porte e a governança do negócio
A pressa na abertura da empresa pode gerar uma estrutura jurídica inadequada. Modelos societários mais robustos, como a Sociedade Anônima, podem criar obrigações administrativas desnecessárias para operações menores. Por outro lado, estruturas simplificadas podem não atender às necessidades de governança, captação, controle e expansão de empresas de maior porte.
A escolha do tipo societário deve considerar o tamanho da operação, o número de sócios, o nível de governança exigido, a estratégia de crescimento e a relação com a empresa matriz.
5. Abrir a empresa sem assessoria local especializada
Erros documentais, enquadramento incorreto no regime, falhas em contratos internacionais, pendências no RUC e inconsistências em processos junto às autoridades paraguaias podem gerar atrasos e penalidades.
No caso da maquila, a empresa precisa observar exigências específicas relacionadas ao programa aprovado, à documentação da matriz estrangeira, aos controles aduaneiros e ao cumprimento das regras do Conselho Nacional da Indústria Maquiladora de Exportação (CNIME). Por isso, contar com assessoria local especializada reduz riscos burocráticos, fiscais e operacionais.
Para a CCBP, o planejamento é o fator que separa uma expansão bem-sucedida de uma operação vulnerável. O Paraguai deixou de ser visto apenas como parceiro comercial tradicional e passou a ocupar posição estratégica para empresas brasileiras que buscam competitividade industrial e presença internacional.
“O Paraguai deixou de ser apenas um parceiro comercial tradicional e passou a ser o coração da estratégia de eficiência de marcas brasileiras que buscam o mercado global. Mas o empresário precisa entender que a conformidade documental e a logística são o que de fato blindam o lucro. O ecossistema paraguaio gera uma economia relevante de ponta a ponta, desde que a lição de casa operacional seja bem executada”, afirma Roger Maciel, presidente da CCBP.