O agronegócio brasileiro pode se tornar um dos principais vetores da expansão das florestas no país nas próximas décadas. A conclusão integra a segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que apresenta um panorama sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no Brasil.
O levantamento será apresentado neste ano nas três Conferências das Partes da Organização das Nações Unidas - as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação. O documento defende que a produção agropecuária, a conservação ambiental e a expansão florestal não devem ser tratadas como agendas opostas, mas como estratégias complementares para o desenvolvimento sustentável.
A publicação foi elaborada por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia.
Segundo o estudo, parte expressiva da conservação ambiental brasileira já ocorre dentro das propriedades rurais privadas, por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs), previstas no Código Florestal.
Além disso, o relatório aponta que há áreas privadas pouco aptas à agricultura ou à pecuária, como terrenos degradados ou de baixa viabilidade produtiva, que podem ser destinadas a projetos de restauração florestal.
Essa possibilidade abre espaço para que produtores rurais contribuam com a regularização ambiental, ampliem a cobertura florestal e, ao mesmo tempo, desenvolvam novas oportunidades econômicas no campo.
O documento reforça que o Brasil já demonstrou capacidade de reduzir o desmatamento sem comprometer a produção agropecuária.
Entre 2004 e 2012, a taxa de desmatamento na Amazônia caiu 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. No mesmo período, mais de 55 milhões de hectares foram protegidos por unidades de conservação.
Para os autores, esse histórico mostra que é possível conciliar produção, conservação, restauração e desenvolvimento econômico, desde que haja governança, políticas públicas, financiamento e segurança jurídica.
A primeira edição do estudo, lançada durante a conferência em Belém, apontou que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e ampliar sua cobertura florestal até 2035.
A projeção indica a possibilidade de passar de 517 milhões para 525 milhões de hectares de florestas em dez anos. O avanço de 8 milhões de hectares equivale a duas vezes o território da Suíça e teria impacto direto na ampliação dos estoques de carbono.
Nesta segunda edição, a análise foi ampliada para todos os biomas terrestres brasileiros, incluindo Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira.
O relatório considera a importância dessas paisagens para remoção de carbono, proteção dos solos, regulação do ciclo hidrológico e conservação da biodiversidade.
A restauração florestal aparece como uma das principais oportunidades para o agronegócio.
Segundo o estudo, áreas privadas pouco aptas para agricultura ou pecuária podem ser recuperadas com espécies nativas, gerando benefícios ambientais, regularização de passivos do Código Florestal e novas fontes de renda.
Uma projeção da WRI citada no documento estima que a restauração florestal pode gerar US$ 141 bilhões no Brasil até 2050, considerando carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.
Levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração em aproximadamente 8 mil propriedades rurais, em um cenário mais conservador.
O estudo também destaca que as florestas exercem papel essencial na manutenção das condições climáticas que sustentam a agricultura brasileira.
Entre os exemplos estão os chamados rios voadores, correntes de umidade que levam chuvas da Amazônia para o Centro-Sul do país.
A publicação cita estudo internacional divulgado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera precipitações avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões por ano para a agricultura.
Dessa forma, a conservação florestal passa a ser entendida não apenas como uma agenda ambiental, mas também como fator de segurança produtiva, hídrica e econômica.
A expansão de florestas plantadas também aparece no estudo como parte da estratégia de transição energética e descarbonização.
O avanço do etanol de milho no Brasil tem aumentado a demanda por biomassa florestal, especialmente eucalipto e pinus, utilizada para geração de energia térmica nas usinas.
Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho representou 22% da produção total de etanol do país, alcançando 8,2 milhões de metros cúbicos.
A previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) é que o volume chegue a 22,55 milhões de metros cúbicos até 2034/2035.
O relatório também reconhece o papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras.
Segundo dados do Imazon citados no estudo, as terras indígenas registraram apenas 3% de todo o desmatamento da Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre os diferentes tipos de territórios monitorados.
Para os autores, fortalecer a governança territorial e ampliar o reconhecimento dessas populações como guardiãs das florestas será fundamental para avançar em conservação, restauração e produção sustentável.
A nova edição do estudo defende que o valor econômico das florestas vai além da captura de carbono.
Com o aumento de secas prolongadas, incêndios florestais, eventos extremos e crises hídricas, as florestas passam a ser vistas como uma infraestrutura natural capaz de reduzir riscos climáticos, regular chuvas, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística.
Nesse contexto, conservação e restauração florestal tornam-se elementos estratégicos de adaptação climática e resiliência econômica.
Apesar do reconhecimento crescente sobre a importância das florestas, o relatório alerta que o financiamento ainda está muito abaixo da necessidade global.
O documento defende o uso de modelos de blended finance, que combinam recursos públicos e privados, além de garantias financeiras, mecanismos de redução de risco e estruturas inspiradas em project finance.
A publicação também destaca a importância de fundos destinados a povos indígenas e comunidades locais, considerados atores centrais para resultados ambientais duradouros.
Para Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú, o desafio é fazer com que o capital natural deixe de ser visto apenas como uma agenda ambiental.
“Precisamos fazer com que o capital natural e as soluções baseadas na natureza deixem de ser vistos apenas como uma agenda ambiental e passem a ocupar um lugar central na economia. As florestas brasileiras têm potencial para se consolidar como uma classe de ativos altamente atrativa para o mercado financeiro, gerando valor por meio de carbono, água, resiliência climática, biodiversidade e segurança alimentar. O desafio agora é criar mecanismos financeiros capazes de transformar esse patrimônio natural em ativos reconhecidos e valorizados globalmente”.
Para Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, o Brasil reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza.
“O Brasil concentra cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, domina tecnologias de conservação, restauração e silvicultura e reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza. Nossas florestas armazenam carbono, regulam chuvas, sustentam a produção agrícola, a geração de energia e o abastecimento de água. Quando falamos em clima, segurança alimentar e resiliência econômica, estamos falando diretamente da importância estratégica das florestas brasileiras”.
Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone, avalia que o país pode ampliar sua liderança ao integrar agricultura, florestas e soluções climáticas.
“O estudo mostra que conservação florestal, restauração e produção agropecuária não são agendas concorrentes. O Brasil já possui uma das maiores áreas conservadas dentro de propriedades privadas rurais e pode ampliar sua liderança global ao conectar agricultura, florestas e soluções climáticas em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo”.
O estudo reforça que o futuro da agenda climática brasileira passa pela capacidade de unir conservação, restauração, produção agropecuária, bioeconomia e financiamento. Nesse cenário, o agronegócio pode deixar de ser visto apenas como setor produtivo e assumir papel estratégico na expansão das florestas e na construção de uma economia mais resiliente.