Quando estudávamos no ginásio, tínhamos muitos amigos. Entre eles estava o Eleonor, que certa vez apareceu com uma novidade capaz de fazer nossos olhos brilharem antes mesmo de entendermos direito do que se tratava.
— Vamos na matinê sábado à tarde assistir um filme no cinema.
Cinema.
A palavra soava moderna, distante, quase futurista para nós, gurizada criada no sítio, acostumada com lavoura, potreiro, estrada de chão e rádio chiando notícias do mundo. Não sabíamos exatamente o que era um cinema. Mas existia alguma coisa mágica ali dentro.
E isso bastava.
Naquele sábado acordamos cedo. Antes mesmo do sol esquentar, já estávamos ajudando nos afazeres do sítio. Tirar leite, tratar os animais, ajeitar ferramentas, varrer o paiol, carregar milho — qualquer serviço servia para mostrar disposição antes de pedir autorização.
Porque a maior ansiedade nem era o cinema.
Era o medo do pai dizer não.
A bicicleta já estava encostada perto do galpão desde a noite anterior, limpa e pronta. O coração batia diferente naquele dia. Quando finalmente veio o “pode ir”, a adrenalina tomou conta da gente como se tivéssemos recebido permissão para atravessar a fronteira de outro país.
E lá fomos nós: eu, o Adelar, o Neco, o Ailson, o Ari, o Ceno e o Eldir, que foi na garupa da bicicleta do Ceno porque ainda não tinha bicicleta própria.
Sete piás pedalando pela estrada vermelha do interior do Paraná como se estivéssemos indo conhecer o futuro.
A corrente das bicicletas estalava seca, o vento batia no rosto e a poeira vermelha subia atrás de nós desenhando uma nuvem comprida na estrada.
O assunto era um só.
— Como será esse tal de cinema?
Chegamos na cidade ainda cedo. O Cine Ideal apareceu diante dos nossos olhos como uma janela aberta para outro mundo. O prédio era simples, de madeira, mas para nós parecia enorme. Na frente havia cartazes coloridos mostrando cowboys armados, cavalos correndo, mulheres bonitas, explosões e paisagens distantes que pareciam impossíveis para quem conhecia apenas roça, potreiro e lavoura.
Ficamos alguns minutos olhando os cartazes sem entrar, tentando entender como aquele mundo inteiro podia caber dentro de um prédio de madeira.
Na bilheteria, uma mulher de cabelos presos entregava os ingressos por uma pequena abertura de madeira. Fazia aquilo com tamanha seriedade que parecia guardar um segredo importante ali dentro.
Entramos devagar, quase em silêncio.
O piso de madeira rangia sob os passos. Havia cheiro de verniz velho, poeira aquecida, tecido antigo e pipoca recém-estourada. Alguns ventiladores giravam preguiçosamente no teto, espalhando um vento morno pelo salão.
Mais ao fundo caminhava o lanterninha, iluminando o corredor com sua pequena lanterna enquanto mandava os mais bagunceiros fazer silêncio.
Aquilo tudo nos parecia sofisticado.
Importante.
Adulto.
Então as luzes começaram a diminuir.
E aconteceu.
Lá do fundo da sala surgiu o velho som hipnótico do projetor:
tec-tec-tec-tec-tec-tec-tec...
O feixe de luz atravessou o escuro, cortando partículas de poeira suspensas no ar como se abrisse uma estrada luminosa até a parede branca à frente.
E o filme começou.
O som era alto, limpo, vibrava dentro do peito. Homens galopavam pelo deserto, tiros ecoavam pelo salão, cavalos levantavam areia enquanto cowboys enfrentavam bandidos em cidades distantes.
Era bangue-bangue.
Faroeste.
Mas para nós aquilo parecia o próprio mundo.
Saímos do cinema transformados. Pegamos as bicicletas e seguimos estrada afora imitando tiros de revólver, apontando os dedos para o alto, galopando em bicicletas como se montássemos cavalos velozes atravessando o Arizona.
— Pega os bandidos! — gritava o Eldir.
E o Ceno quase caiu da bicicleta de tanto rir.
O sol já começava a baixar quando voltamos para casa. A poeira grudava nas pernas, o suor secava na camisa e a cabeça seguia cheia daquele universo novo que havíamos descoberto.
Naquela noite o cinema continuou rodando dentro da nossa cabeça.
O tempo passou.
Talvez já fosse final dos anos 70, começo dos 80.
O Oeste do Paraná começava a crescer depressa. As cidades ganhavam movimento, lojas novas apareciam, carros diferentes começavam a circular pelas ruas e nós também mudávamos junto com aquele mundo.
Já não chegávamos mais de bicicleta.
Agora havia a Honda 50 cilindradas.
A cinquentinha dava uma sensação de liberdade que até então parecia impossível. Sentávamos na praça de Porto Mendes apenas para conversar, olhar o movimento e sentir que o mundo estava ficando maior.
Foi numa dessas tardes que apareceu um Corcel branco passando lentamente pela avenida, com uma caixa de som amarrada no teto.
A voz metálica ecoava pela cidade:
— Hoje! Grande exibição de filme no Clube Sempre Verde!
E lá fomos nós outra vez.
O Clube Sempre Verde era diferente de tudo. Alto do chão, construído de madeira forte, tinha o salão octogonal e o piso rebaixado para os bailes. Embaixo do assoalho existiam aberturas de ventilação para evitar que a madeira apodrecesse.
E era justamente ali que a piazada se escondia.
Moleques se enfiavam por baixo do clube para assistir aos filmes pelas frestas do assoalho. Deitados na terra, espichando o pescoço, tentando enxergar alguma cena entre um buraco e outro.
Tudo valia a pena por alguns minutos de cinema.
Na entrada sempre existia negociação.
— Pago na próxima...
— Depois eu acerto...
— Deixa eu entrar só dessa vez...
E quase sempre alguém acabava entrando.
O senhor Macchioni chegava com seus equipamentos como quem carregava um pedaço do mundo dentro do Corcel. Projetor, rolos de filme, fios, caixas de som, emendas improvisadas, latas metálicas cheias de película.
As mãos tinham cheiro de graxa e óleo de máquina.
Mas quando começava a montar o equipamento, parecia um maestro preparando espetáculo.
Então vinha aquele instante mágico.
As luzes apagavam.
Alguém cochichava no escuro:
— Fica quieto que vai começar.
E o salão inteiro mergulhava em silêncio.
O projetor começava novamente seu velho canto mecânico:
tec-tec-tec-tec-tec...
Na tela improvisada surgiam desertos, aventuras, romances, perseguições e explosões.
Havia cheiro de pipoca, amendoim torrado, refrigerante em garrafa de vidro e madeira antiga aquecida pelo calor das pessoas. Crianças riam alto. Casais cochichavam. Alguém comentava a cena antes da hora e levava bronca dos outros.
Quando a fita queimava, o povo vaiava como se o time tivesse perdido um campeonato.
E quando voltava, todos aplaudiam.
Mais alguns anos passaram.
A cinquentinha foi vendida.
No lugar dela veio uma Honda CG ML.
Agora íamos longe.
Santa Helena. Toledo. Palotina.
As estradas pareciam menores quando a juventude ainda morava dentro da gente.
Já estávamos próximos dos anos 90 quando o Cine Maver se tornou parte da nossa vida em Marechal Cândido Rondon.
E aquilo era outro universo.
Gigantesco.
Talvez seiscentas pessoas sentadas ali dentro. Poltronas estofadas, cortinas pesadas, cheiro de carpete, luzes suaves iluminando os corredores. A tela parecia imensa, talvez seis ou sete metros de altura por mais de dez de largura.
Quando o som começava, as paredes tremiam.
As caixas acústicas espalhadas pelo salão faziam o peito vibrar junto com os filmes.
Ir ao cinema virou quase um ritual.
Havia prazer em pilotar a moto à noite, sentir o vento frio do Oeste do Paraná cortando o rosto, estacionar perto da praça e caminhar até a fila vendo a juventude inteira reunida ali.
Moças bem-arrumadas. Rapazes penteando o cabelo no reflexo das vitrines. Perfume misturado com pipoca amanteigada e fumaça de cigarro.
O cinema aproximava as pessoas.
Lembro do Adelar sentado algumas filas à frente com a namorada. De vez em quando eu olhava de canto. Ela deixava a mão repousada devagar sobre o braço da poltrona, quase esperando coragem.
E ele ali, duro, tímido, sem saber o que fazer.
Até que os dedos dos dois finalmente se encostaram.
Depois disso, acho que nenhum dos dois viu mais o filme direito.
Na saída estavam de mãos dadas.
E talvez aquilo fosse mais bonito do que qualquer romance passando na tela.
Comigo também aconteceu parecido certa vez.
Havia vergonha. Medo. Frio na barriga.
Passei metade do filme criando coragem.
Quando finalmente meus dedos tocaram a mão dela, um arrepio percorreu minha espinha inteira. O coração disparou de um jeito que nem os filmes de ação conseguiam provocar.
Quase não lembro da história daquele filme.
Mas lembro perfeitamente da sensação daquela mão dentro da minha.
Enquanto a cidade ganhava luzes novas, vitrines maiores e ruas mais movimentadas, nós também parecíamos crescer junto com aquelas noites.
Assistíamos romances, aventuras, filmes de ação, histórias que faziam a namorada apertar a mão da gente nos momentos mais bonitos.
Às vezes o filme nem importava tanto.
Importava estar ali.
Hoje muita coisa mudou.
As fitas desapareceram. Os projetores silenciaram. Muitas daquelas salas fecharam as portas.
Talvez no lugar de alguns cinemas exista hoje uma loja, um depósito ou apenas silêncio.
Mas às vezes, quando entro numa cidade pequena ao cair da tarde e vejo um antigo cinema abandonado, ainda consigo ouvir dentro da memória aquele velho som:
tec-tec-tec-tec-tec...
E por um instante volto a ser aquele menino pedalando pela estrada vermelha do interior do Paraná, acreditando que o mundo inteiro cabia dentro de uma sala escura de madeira.
Talvez ainda caiba.
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