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Quando o sol coloria o lago em Porto Mendes
E tudo era pertencimento
10/04/2026 08h54 Atualizada há 3 horas
Por: João Livi
Gelsiney Schell é o autor da crônica publicada.

Se a memória não me trai, era 1983… talvez 1984.

O lago ainda era novidade.
E nós também.

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Vivíamos entre mato alto, pés de bergamota carregados, goiabeiras tortas e aquele espelho d’água recém-nascido, enorme demais para quem ainda media o mundo pela distância de uma corrida de pé no chão.

A tarde começava antes mesmo do relógio permitir.

Gritos pela avenida.
Os pés descalços pulando nas poças.
O vento passando pelos pinheiros como quem chamava pelo nome.

A piazada do djanho nem precisava combinar.

O destino era sempre o mesmo:

- o lago.

Empurrávamos a canoa para a água com solenidade silenciosa.
Ninguém perguntava de quem era.

Naquele tempo, as coisas não tinham dono.

Pertenciam ao momento.

A água subia pelo corpo devagar.
Os pés afundavam no antigo potreiro.
O riso vinha fácil, espantando qualquer sombra de medo.

Remávamos sem pressa.

A margem ficava para trás como fica a infância quando ainda não sabemos que ela está indo embora.

Íamos procurar os altos dos Alheves.

Só quem cresceu ali sabia reconhecer o lugar.
A água mudava de cor.
O vento soprava diferente.
O silêncio ficava mais fundo.

Amarrávamos a canoa num tronco seco.

E esperávamos.

Não conversávamos muito.

Havia coisas que pediam respeito.

O sol começava então seu trabalho lento.

Primeiro uma linha dourada.
Depois o lago inteiro acendia.
Rosa.
Lilás.
Roxo.

A água respirava luz.

Os peixes riscavam a superfície.
Até os mais bagunceiros ficavam quietos, como se alguém tivesse pedido silêncio sem usar palavras.

Naquele instante ninguém queria ser maior do que era.

Apenas estar.

Quando a noite chegava, deixávamos a canoa no barranco, entregue ao escuro, e voltávamos correndo pela estrada de chão.

O velho moinho surgia no caminho como guardião das tardes.
Mais adiante, o velho Max acenava para nós com uma cara de brabo.

E nós - negociantes importantes - ainda aparecíamos com algumas garrafas vazias para vender para o Max, acreditando que a vida adulta começava ali.

Mas o dia não terminava.

Porque à noite Porto Mendes virava cidade grande.

Era dia do cinema itinerante do senhor Macchioni.

O carro antigo chegava levantando poeira e expectativa.
De dentro dele saíam cadeiras, fios, caixas metálicas e um projetor que parecia guardar outro universo.

O cinema acontecia no Clube Sempre Verde.
Às vezes na churrascaria e hotel Max.
Outras vezes numa sala simples ao lado da praça.

Apagavam-se as luzes.

E o mundo mudava.

O projetor roncava.
A luz atravessava o escuro.
A parede branca deixava de ser parede.

Virava estrada, sertão, riso e saudade.

Teixeirinha cantava suas dores.
Quando surgia Amácio Mazzaropi, ninguém resistia - o riso escapava solto, igual vento sobre o lago.

Às vezes o filme arrebentava.

A imagem tremia.
A máquina engasgava.
Alguém assobiava no fundo.

E quando tudo voltava, a plateia respirava junto, como se também fizesse parte do filme.

Ali ninguém era rico.
Ninguém era pobre.

Todo mundo era história.

Depois da sessão, a caminhada de volta parecia continuação da tela.

Sapos cantando.
Grilos marcando o compasso da noite.
Vagalumes acendendo pequenas estrelas ao nível dos olhos.

Passávamos no bolicho do Léo para gastar o troco em chiclete.

E seguíamos para casa carregando algo que não sabíamos nomear.

Hoje entendo.

Era pertencimento.

O lago continua lá.

O cinema se foi.
A canoa talvez tenha desaparecido em alguma margem esquecida.
Alguns amigos ficaram apenas na lembrança, como ficam as coisas que foram verdadeiras demais para durar.

Às vezes volto.

No fim da tarde, quando o vento passa por Porto Mendes... os pinheiros não estão mais na avenida... algo dentro de mim desacelera.

Por um instante deixo de ser adulto.

Sou novamente o menino sentado na borda da canoa, olhando o horizonte sem pressa.

Fecho os olhos.

Quase escuto as remadas.
O riso da piazada.
O projetor engasgando antes do filme continuar.

E então compreendo:

nós não sabíamos que aqueles eram os melhores dias da nossa vida.

A infância não termina.

Ela apenas fica esperando.

E sempre que o sol volta a colorir o lago, eu paro.

Nem que seja por um segundo.

Não para voltar.

Mas para reconhecer.

Porque naquele reflexo ainda vivem a canoa, os amigos, o cinema…

e um menino quieto na margem do tempo,

sem imaginar que um dia escreveria tentando alcançá-lo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e 
não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.