Toda comunidade religiosa deveria pensar melhor antes de colocar crianças na primeira fila.
Especialmente quando há teatro envolvido.
Era Páscoa e o grupo de jovens apresentaria a tradicional encenação da Paixão de Cristo na Igreja Luterana de Novo Três Passos. Igreja pequena, calor respeitável e uma fé coletiva sustentada por bancos de madeira que rangiam discretamente a cada movimento mais entusiasmado.
Chegamos cedo.
O figurino era simples, porém ambicioso. Cada personagem carregava mais simbolismo do que orçamento. Eu havia sido escalado para representar o mal, o que até hoje considero uma escolha artística discutível, embora provavelmente coerente com minha capacidade dramática da época.
Vestia uma capa preta com forro vermelho, capuz sobre a cabeça e uma maquiagem escura cuja intenção era transmitir ameaça, mas que, sob quarenta graus internos, começava lentamente a transmitir derretimento.
As crianças foram acomodadas bem na frente.
Sempre há alguém que acredita que crianças pequenas apreciam profundidade teológica e conflitos metafísicos se estiverem suficientemente próximas do palco.
O espetáculo começou.
Milagrosamente, ninguém esqueceu as falas. O anjo surgiu leve, sereno, celestial. Eu aguardava minha entrada tentando não suar sobre o próprio simbolismo do mal.
Então veio a cena.
O anjo aproximou-se e perguntou:
- Quem é você?
Era o momento decisivo. A revelação. A grande tensão dramática.
Virei-me lentamente para o público.
Ali estavam elas: quinze crianças absolutamente concentradas, olhando para mim como quem espera uma resposta definitiva sobre o universo.
Respirei fundo.
Projetei a voz como haviam ensinado nos ensaios.
E declarei, com toda intensidade possível:
- EU SOU O HOMEM!
O efeito foi imediato.
Não espiritual.
Biológico.
Instinto puro de sobrevivência infantil.
O silêncio virou grito.
A contemplação virou fuga estratégica.
Uma criança tentou desaparecer atrás do banco. Outra passou a reconsiderar seriamente sua relação com a religião organizada.
A igreja inteira começou a rir.
Não era um riso de deboche. Era aquele riso comunitário que nasce quando todos percebem, ao mesmo tempo, que algo saiu magnificamente do controle.
O anjo manteve a compostura com admirável profissionalismo. Eu permaneci imóvel, porque o mal não pode pedir desculpas em cena.
As professoras tranquilizavam as crianças:
- É só teatro… é só teatro…
O que, naquele momento, parecia exatamente o tipo de coisa que alguém diria quando claramente não é só teatro.
A peça continuou.
Cristo ressuscitou.
A mensagem foi entregue.
E as crianças, aos poucos, aceitaram que o mal não frequentava regularmente a igreja - apenas participava de eventos especiais de Páscoa.
Anos depois, percebi que talvez aquele tenha sido o momento mais honesto da apresentação.
Porque o teatro religioso tenta explicar o mistério da vida, mas quem realmente entende o drama são as crianças. Elas não analisam símbolos. Elas acreditam.
E quando o mal grita diante delas, a reação correta não é reflexão teológica.
É correr.
Desde então, aprendi duas coisas importantes:
primeiro, nunca subestime o poder de uma capa preta em ambiente fechado;
segundo, toda Páscoa deveria incluir um pouco de riso.
Afinal, se a Ressurreição venceu a morte, certamente também perdoa um ator amador que assustou metade da congregação tentando apenas dizer sua fala corretamente.
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