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Uma casa no estradão
Sabedoria silenciosa do interior
13/03/2026 08h49
Por: Gelsiney Schell

Primeiro apareceu a casa.

Depois veio o caminhão.

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E lá estava ela - inteira - atravessando o estradão de terra vermelha como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Uma casa viajando.

No Sul do Brasil havia - e em muitos lugares ainda há - um costume curioso que para nós parecia absolutamente normal: casa também muda de lugar.

As casas de madeira eram construídas sobre troncos grossos, pilares ou pedras grandes. Algumas ficavam quase um metro acima do chão. Não era apenas para fugir da umidade ou da chuva atravessada dos temporais de verão.

Era também uma sabedoria silenciosa do interior.

No interior, se um dia é preciso partir, a gente leva a casa junto.

E foi assim que, numa manhã de primavera de 1983, eu vi pela primeira vez uma casa viajar.

Naquele tempo, as terras próximas ao Rio Paraná estavam vivendo dias de despedida. Muitas propriedades haviam sido indenizadas por causa da formação do Lago de Itaipu, criado com a construção da gigantesca Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Em pouco tempo, cercas, caminhos, árvores e sítios inteiros desapareceriam sob a água.

Mas naquela manhã não havia tristeza no ar.

Havia movimento.

Havia vida.

Meu pai decidiu visitar um amigo que trabalhava perto dali. Eu fui junto, naturalmente, sentado na garupa da bicicleta.

E que bicicleta.

Para mim, naquela época, ela parecia uma obra de arte sobre duas rodas.

Era nova. Brilhava inteira. O sol batia nos raios e produzia pequenos clarões de luz. Nos próprios raios havia bolinhas coloridas que, conforme a roda girava, deslizavam de um lado para o outro fazendo um barulhinho alegre - um som que encantava qualquer criança.

Na ponta do guidão balançavam fitas coloridas que dançavam no vento da estrada.

No paralama dianteiro e no traseiro havia pequenas proteções de borracha com refletores coloridos - vermelho, amarelo, azul e verde - que reluziam como se a bicicleta estivesse sempre pronta para uma festa.

E havia também o dinamo.

Encostado no pneu, ele girava quando a roda rodava e fazia acender uma pequena lâmpada na frente da bicicleta. À noite aquilo virava um pequeno farol para enfrentar as estradas escuras do interior.

Atrás do selim havia uma pequena almofada encaixada no banco da garupa.

Era ali que eu me acomodava, viajando confortável enquanto o mundo passava devagar diante dos olhos.

Naquele tempo, uma bicicleta dessas valia quase o preço de uma moto hoje.

Era um luxo.

Meu pai pedalava de sandálias, calça social e uma camisa típica dos anos setenta - dessas que hoje chamariam de vintage.

E lá fomos nós estrada adentro.

Descemos o estradão de terra vermelha até a ponte do Rio São Cristóvão.

Era uma ponte de madeira estreita. Passava um carro por vez. Não havia proteção lateral.

Quando atravessávamos, as tábuas rangiam suavemente.

Lá embaixo o rio corria preguiçoso, refletindo pedaços do céu.

Assim que cruzamos a ponte, a paisagem mudou.

O interior se abriu diante de nós como um mosaico de tempos diferentes.

De um lado ainda havia lavouras vivas - pedaços de terra cultivados, milho crescendo, algum trigo tardio.

Do outro surgiam áreas abandonadas.

Campos onde o mato começava a tomar conta. Cercas tortas. Caminhos que em breve desapareceriam sob as águas do novo lago.

Entre essas paisagens erguiam-se pinheiros altos.

Quando o vento soprava, suas copas produziam um assovio profundo.

Um som longo.

Grave.

Parecia que o próprio interior estava respirando.

Mas havia também vida nos pequenos detalhes.

Ao longo das casas simples do caminho, as senhoras mantinham seus jardins.

Flores plantadas ao redor das cercas, perto das portas, junto às janelas.

E o perfume dessas flores tomava conta da estrada.

O cheiro de jasmim vinha primeiro.

Leve.

Doce.

Logo depois surgia o perfume das rosas.

Mais profundo.

E havia tantos outros aromas - flores que talvez hoje eu nem saiba mais nomear - mas que naquele tempo marcavam a infância com uma força invisível.

Enquanto pedalávamos, esses perfumes vinham e iam como ondas no ar.

Passávamos por uma casa…

vinha o jasmim.

Mais adiante…

o cheiro de rosas.

Depois outro perfume se misturava ao vento, ao pó da estrada e ao cheiro do mato.

Era como se o caminho inteiro estivesse perfumado pela memória das famílias que um dia viveram ali.

Enquanto meu pai pedalava, eu levantei os olhos para o céu.

Lá em cima algumas aves riscavam o azul da manhã, e borboletas coloridas dançavam sobre a estrada, como se também viajassem conosco.

Seguimos que levava à linha Rio Branco.

O dia estava perfeito.

Sol claro.

Céu aberto.

A primavera recém-chegada deixando o ar macio.

Depois de alguns quilômetros chegamos ao sítio do amigo do meu pai.

De longe já vimos movimento.

Homens caminhavam sobre o telhado retirando as últimas telhas de barro.

Quando nos aproximamos mais, percebi algo que até então eu nunca tinha visto.

A casa estava suspensa.

Macacos mecânicos levantavam a estrutura. Troncos grossos sustentavam a base. A casa já estava mais de um metro acima do chão.

Os homens trabalhavam em mutirão.

Vizinho ajudando vizinho.

Um girava o macaco.

Outro encaixava uma viga.

Outro observava a estrutura.

Tudo era feito com calma e experiência - aquela engenharia silenciosa que o interior sempre soube praticar.

Ao redor da casa o sítio parecia viver um momento estranho de despedida.

O pomar estava praticamente abandonado.

Laranjeiras carregadas deixavam cair frutos maduros no chão.

Goiabeiras espalhavam cheiro doce pelo ar.

E as crianças - como sempre - transformavam qualquer situação em festa.

Subiam nas árvores.

Sacudiam galhos.

Comiam frutas ali mesmo.

- Essa goiaba tá boa! - alguém gritava lá de cima.

Outra laranja era arrancada do galho.

O suco escorria pelos dedos.

Apesar da despedida da terra, havia alegria naquele pedaço de mundo.

Então ouvimos o ronco de um motor.

Um caminhão Mercedes antigo, azul, entrou na estrada do sítio.

Manobrou devagar.

Muito devagar.

Os homens faziam sinais.

- Mais!
- Segura!
- Agora!

A carroceria entrou por baixo da casa.

Quando tudo estava alinhado, começaram a soltar os macacos.

A casa desceu lentamente.

Centímetro por centímetro.

A madeira rangia.

As vigas estalavam.

E então, com uma suavidade quase solene, a casa pousou sobre o caminhão.

Vieram as correntes.

Os cabos de aço.

As cordas grossas.

Tudo bem travado.

Tudo bem preso.

O motor roncou forte.

O caminhão subiu devagar a estradinha da entrada do sítio, alcançou o estradão e seguiu viagem.

Uma casa inteira indo embora pela estrada.

Fiquei olhando até desaparecer na curva.

Depois disso, ainda vi muitas casas viajando pelas estradas do interior.

Mas aquela foi a primeira.

E talvez por isso, até hoje, quando penso naquele tempo, a lembrança sempre volta do mesmo jeito:

um estradão de terra vermelha,
o vento assoviando nos pinheiros,
o perfume das flores no caminho…

e uma casa viajando devagar pela estrada -
como se naquele tempo até as casas soubessem que a vida, às vezes, também precisa seguir viagem

 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial da Revista Especiais.