Brasil Dívida externa
Dívida externa do Brasil dispara e se aproxima de US$ 400 bilhões
Endividamento com o exterior atinge maior nível da história e reduz a margem de segurança das reservas internacionais
10/03/2026 18h25
Por: João Livi
No atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, as reservas cresceram 12,2%, enquanto a dívida externa avançou 24,4%. (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

O endividamento externo brasileiro alcançou o maior nível já registrado e se aproxima da marca de US$ 400 bilhões, acendendo um alerta entre analistas sobre a evolução das contas externas do país. Dados divulgados pelo Banco Central do Brasil indicam que a dívida externa total - somando governo, bancos e empresas - chegou a US$ 397,5 bilhões em janeiro, o valor mais alto em 56 anos de estatísticas.

Apesar do avanço expressivo, economistas ainda avaliam que a situação está sob controle no curto prazo. O Brasil segue com volume de reservas internacionais superior ao total das dívidas externas, mas a diferença entre esses dois indicadores vem diminuindo de forma significativa.

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Margem entre reservas e dívidas encolhe

Nos últimos anos, a folga entre as reservas internacionais e o endividamento externo caiu drasticamente. Há cerca de uma década, o país mantinha uma margem superior a US$ 67 bilhões após descontar as dívidas externas.

Atualmente, esse saldo caiu para menos de US$ 10 bilhões, o menor patamar desde que o Brasil passou à condição de credor internacional, há aproximadamente duas décadas.

Segundo analistas, o crescimento da dívida externa vem ocorrendo de forma contínua desde 2023, acumulando alta de 24,4% nesse período.

Economistas veem risco ainda limitado

Mesmo com o aumento da dívida, especialistas avaliam que o cenário ainda não representa uma ameaça imediata para a estabilidade econômica do país.

“Ainda não vemos um sinal de desequilíbrio iminente ou de insustentabilidade no curto prazo. Mas esse aumento da dívida merece atenção. A cobertura das reservas internacionais e de outros ativos externos, embora continue confortável, vem caindo”, afirmou Iana Ferrão, economista do BTG Pactual, em declaração ao Estadão/Broadcast.

Déficit externo cresce com aumento do consumo

Outro fator que pressiona as contas externas é o crescimento do déficit em transações correntes, que reúne operações comerciais e financeiras do Brasil com o restante do mundo.

Esse déficit saltou de US$ 27,1 bilhões em 2023 para US$ 69 bilhões no ano passado. O aumento é atribuído, entre outros fatores, à economia aquecida e ao crescimento do consumo internacional dos brasileiros, incluindo serviços digitais e plataformas de streaming.

Embora o Brasil ainda receba volumes expressivos de investimento estrangeiro direto - cerca de US$ 77,7 bilhões em 2025 -, esse fluxo já não cobre com a mesma folga o déficit externo.

Reservas seguem superiores às dívidas de curto prazo

Mesmo com a redução da margem de segurança, economistas destacam que o país ainda possui um importante colchão financeiro.

As reservas internacionais continuam cerca de três vezes maiores que a dívida externa com vencimento de curto prazo, estimada em US$ 119,8 bilhões.

Além disso, a exposição do setor público ao endividamento externo é relativamente pequena.

Governo tem baixa exposição ao risco cambial

Embora o valor da dívida externa do governo federal tenha aumentado na conversão para reais - ultrapassando R$ 1 trilhão no atual mandato presidencial - a maior parte desse montante não está diretamente exposta ao câmbio.

Cerca de 72% da dívida pública federal é composta por títulos emitidos em reais e negociados no mercado doméstico. Quando esses papéis são adquiridos por investidores estrangeiros, passam a ser classificados como dívida externa nas estatísticas do Banco Central.

De acordo com dados do Tesouro Nacional do Brasil, apenas 3,6% da dívida pública federal corresponde a emissões realizadas diretamente no mercado internacional, que de fato sofrem impacto das variações cambiais.

Bancos lideram aumento do endividamento externo

Grande parte do crescimento recente da dívida externa brasileira está concentrada no setor privado, especialmente nos bancos.

Segundo os dados mais recentes, três quartos do endividamento externo do país pertencem ao setor privado. A dívida dos bancos cresceu 32% no último ano, enquanto o aumento no setor público foi de 7,7%.

No caso das empresas, especialistas apontam que o risco é menor, já que muitas possuem receitas em moeda estrangeira ou mecanismos de proteção cambial.

Tesouro pretende ampliar captação internacional

Mesmo com o aumento da dívida externa, o governo avalia que ainda há espaço para ampliar a presença do país no mercado internacional de crédito.

Procurado pelo Estadão/Broadcast, o Tesouro Nacional afirmou que o Brasil mantém uma posição externa considerada confortável e pretende continuar emitindo títulos no exterior.

Entre as estratégias em estudo estão a retomada de emissões de títulos em euros e até a possibilidade de uma captação inédita em yuan, a moeda chinesa, como forma de diversificar investidores e fontes de financiamento.

Para Tiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, a diversificação da base de credores pode ser positiva para o país.

Segundo ele, ampliar a presença nos mercados internacionais pode ajudar o Brasil a aproveitar momentos de maior liquidez global e melhorar as condições de financiamento da dívida pública.