Agronegócio Alerta no agro
Conflito no Oriente Médio e restrições da China acendem alerta para fertilizantes no Brasil
Avaliação técnica do Ministério da Agricultura aponta risco de aumento de preços e possível desabastecimento para a safra 2026/2027
09/03/2026 09h36
Por: João Livi
Dependência externa de fertilizantes deixa agricultura brasileira sensível a crises geopolíticas. (Foto: Freepik)

Uma análise técnica do Ministério da Agricultura e Pecuária aponta que o atual cenário geopolítico internacional pode provocar impactos significativos no abastecimento de fertilizantes no Brasil. A combinação entre o conflito envolvendo o Irã e as restrições impostas pela China às exportações de insumos agrícolas acendeu um alerta dentro do governo federal.

Segundo documentos produzidos pela área técnica da pasta, o país enfrenta um risco elevado de encarecimento e até de escassez de fertilizantes, insumos fundamentais para a produtividade das lavouras. O impacto pode ser sentido já na safra 2026/2027, cujo plantio ocorre no segundo semestre deste ano.

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Dependência externa  

O Brasil depende fortemente de fornecedores internacionais para garantir o abastecimento desses insumos. Estimativas indicam que cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira são importados, tornando o país altamente sensível a crises externas.

Além de ser o quarto maior consumidor mundial, o Brasil também figura entre os principais importadores globais desse tipo de produto.

Esse cenário preocupa o governo, pois qualquer alteração significativa na logística internacional ou nas cadeias de produção pode afetar diretamente o custo de produção agrícola.

Logística global

Entre os fatores que mais chamam a atenção das autoridades está a situação no Estreito de Hormuz, uma das rotas mais importantes para o comércio internacional de energia.

O eventual bloqueio da rota marítima compromete o transporte de gás natural liquefeito, insumo essencial para a produção de fertilizantes nitrogenados, como amônia e ureia.

Como consequência, o encarecimento do gás pode elevar o custo de produção desses fertilizantes e reduzir a oferta global.

Caso as restrições ao tráfego marítimo persistam por um período prolongado, especialistas alertam que o problema pode deixar de ser apenas de preço e passar a envolver disponibilidade do produto no mercado internacional.

Pressão no mercado

Outro fator que amplia a preocupação é a decisão da China de limitar temporariamente as exportações de fertilizantes fosfatados, com o objetivo de preservar seu abastecimento interno.

O país asiático é um dos principais fornecedores desses insumos ao Brasil. A restrição pode reduzir significativamente a oferta global e pressionar ainda mais os preços.

Estimativas do setor indicam que o mercado brasileiro pode enfrentar déficit entre 1 milhão e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, volume suficiente para afetar o desempenho de diversas culturas.

Culturas que podem ser afetadas

Entre as produções agrícolas mais sensíveis à eventual escassez de fertilizantes estão:

Essas cadeias produtivas têm grande peso na economia brasileira e dependem fortemente da aplicação regular de fertilizantes para manter os níveis de produtividade.

Redução da dependência

Diante dessa vulnerabilidade, o governo federal trabalha em um plano estratégico para ampliar a produção nacional de fertilizantes.

O chamado Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2023 com participação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, estabelece metas de longo prazo para diminuir a dependência externa.

A proposta prevê reduzir em cerca de 50% a necessidade de importações até 2050, incentivando investimentos em produção doméstica e novas tecnologias.

Apesar disso, especialistas reconhecem que medidas estruturais levam tempo para produzir resultados, o que mantém o Brasil vulnerável a choques internacionais no curto prazo.