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Sem dominar o espanhol, ele cruzou a fronteira e virou professor em uma das universidades mais respeitadas do Chile
Nascido em Mercedes, Daniel Schwantes relata como uma vaga internacional mudou sua trajetória, o choque cultural e as lições para jovens do Oeste do Paraná
28/02/2026 12h28 Atualizada há 4 horas
Por: João Livi
Daniel Schwantes, ex-morador de Mercedes, atua desde 2019 como professor e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica do Chile.

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Sair do Oeste do Paraná sem dominar o idioma do país de destino e, mesmo assim, entrar em sala de aula no dia seguinte é o tipo de aposta que raramente termina bem. Na história de Daniel Schwantes, terminou. Ex-morador de Mercedes, ele construiu carreira acadêmica no Brasil e, desde março de 2019, atua como professor e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica do Chile.

Em entrevista à Revista Especiais, Daniel conta que a virada veio quando uma oportunidade surgiu no exterior em um período que, segundo ele, era de instabilidade para pesquisadores e professores universitários no Brasil. O processo foi online, com etapas feitas em um "portunhol", até a aprovação que levou ele e a companheira, Rosiane Livi, a recomeçar a vida fora do país.

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Daniel resume sua origem sem rodeios: nasceu em Mercedes, é filho de Eloísa e Vilson Schwantes, estudou no colégio do município e fez faculdade Unioeste, em Marechal Cândido Rondon, mesma instituição onde cursou a pós-graduaçã até o pós-doutorado e consolidar sua especialização.

Uma vaga, uma seleção e o salto

A vaga no Chile não apareceu por acaso em um contato informal. Daniel afirma que encontrou a oportunidade pela plataforma ResearchGate, que descreve como um "LinkedIn mais do cientista" e onde universidades divulgam posições, perfil desejado e encaminham o candidato ao edital da instituição.

Ele relata que tentou outras seleções internacionais, como Alemanha e Noruega, mas foi o Chile que avançou. O que definiu o resultado, na visão do entrevistado, foi a combinação de oportunidade e preparação profissional, construída em uma trajetória que passou por instituições no Paraná antes da mudança.

Antes de chegar ao Chile, Daniel trabalhou na PUC Paraná (campus Toledo), na UFPR (Setor Palotina) e no grupo UDC, em Foz do Iguaçu e Medianeira. Ele diz que já estava em um momento de maturidade na profissão quando a vaga se abriu.

A estreia em sala e o "portunhol" de emergência

Daniel afirma que desembarcou no Chile na madrugada de 9 de março de 2019. No dia seguinte, já estava em aula. Sem espanhol formal, o início foi marcado por improviso e adaptação acelerada, com suporte da universidade, que estruturou acolhimento para estrangeiros e financiou um curso intensivo de espanhol por seis meses.

"Eu saí aqui no sábado, cheguei no domingo, e na segunda-feira eu entrei em aula".

No primeiro semestre, segundo ele, o curso era optativo, com poucos alunos e acompanhamento de um professor mais experiente. Depois, passou a assumir disciplinas de forma direta, avançando conforme o idioma deixava de ser barreira diária.

O que ele pesquisa e por que isso pesa

Formado em Engenharia Agronômica pela Unioeste em Marechal Cândido Rondon, Daniel diz que sua trajetória acadêmica foi construída na instituição, com graduação iniciada em 2006 e concluída em 2010, seguida por mestrado e doutorado. Ele destaca a influência do professor Afonso Gonçalves Júnior, com quem trabalhou em laboratório, e afirma que sua base está ligada à química agronômica e ambiental.

O foco atual, conforme relata, envolve toxicologia e substâncias potencialmente tóxicas, com ênfase em defensivos agrícolas - ou pesticidas, como prefere a nomenclatura internacional. Ele afirma que a área é "perigosa", mas estratégica, e defende que a pesquisa pode contribuir para tornar o uso desses produtos mais sustentável e menos arriscado para agricultor, aplicador e consumidor.

"Eu gostaria muito de contribuir para um uso mais sustentável desses defensivos".

Sete anos fora, outra cultura, outro ritmo

Ao comparar o cotidiano acadêmico no Chile com experiências vividas no Oeste do Paraná, Daniel afirma que percebe maior respeito à figura do professor e um ambiente mais polido em sala de aula. Para ele, não se trata de status, mas de comportamento e convivência institucional.

Ele também descreve diferenças culturais práticas: horários, formas indiretas de pedir algo e regras sociais que não estão em manuais. A leitura dele é objetiva: em outro país, o estrangeiro precisa se adaptar.

"Quando você está em outro país, a banda toca de outro jeito".

Pesquisa com empresa, imposto e aceleração de resultados

Daniel relata que uma diferença marcante em editais e financiamento é a exigência, em diversos concursos, de vínculo com o setor empresarial para viabilizar projetos em ciência aplicada. Isso força o pesquisador a construir sinergia com empresas e alinhar demandas reais do mercado às soluções acadêmicas.

Ele cita ainda um modelo em que parte do investimento empresarial em pesquisa pode ser abatida em impostos no ano seguinte, mecanismo que, segundo ele, impulsiona a inovação e aproxima universidade e setor produtivo. Como exemplo de impacto, conta a parceria em torno de uma molécula com potencial antifúngico que, a partir de 2019, evoluiu com empresas do setor e pode chegar ao mercado até 2030.

"Todo professor, antes de ser professor, ele é um aluno".

Agricultura chilena: outra lógica e outra cobrança

Daniel diz que o Chile é um país "muito isolado" por geografia e apresenta uma agricultura de clima temperado, diferente da realidade brasileira. Ele destaca que uva e vinho têm protagonismo, além da produção de cereja por estratégia de contratemporada no Hemisfério Norte, e menciona cereais de inverno como trigo e aveia.

A leitura dele é que o agrônomo chileno precisa dominar um espectro maior de culturas porque, em poucas centenas de quilômetros, há produção diversificada. Na prática, afirma que isso exige mais estudo e adaptação técnica.

A mensagem para quem quer sair do interior

Para jovens de Mercedes, Marechal Cândido Rondon e municípios da região, Daniel resume três exigências para uma carreira internacional: idioma, mente aberta e preparo emocional para a distância da família. Ele recomenda inglês como base e defende que o espanhol deveria ser tratado como prioridade por brasileiros, citando desconhecimento do Brasil sobre a América Latina.

"Se essa pessoa quer alcançar uma carreira internacional, ele precisa aprender outro idioma".

No encerramento, ele reforça que viver fora tem ganhos e perdas, e que nenhum lugar elimina problemas. A síntese que oferece é pragmática: resolver o que é possível, aceitar o que não depende do indivíduo e manter coragem para oportunidades que exigem risco.

"Não tenha medo. Tenha coragem".

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