Moradores de Havana descrevem o atual cenário econômico e energético como o mais difícil já enfrentado pelo país nas últimas décadas. O aumento dos apagões, a alta acelerada nos preços de produtos básicos, a redução da oferta de transporte público e a limitação na distribuição da cesta básica subsidiada são apontados como os principais impactos sentidos nas últimas semanas.
A arquiteta Ivón B. Rivas Martinez, de 40 anos, mãe solo de um filho de 9 anos, relata que a rotina na capital cubana tornou-se imprevisível. Segundo ela, as interrupções no fornecimento de energia deixaram de seguir um cronograma fixo e passaram a ocorrer sem aviso prévio.
"Antes, havia cerca de quatro horas sem energia por dia na capital, depois aumentou para cinco horas. Com o agravamento da crise, esse tipo de planejamento não é mais possível. Ninguém sabe quantas horas podem ser. Hoje houve 12 horas de apagão", afirma.
A instabilidade elétrica tem impacto direto no funcionamento de serviços básicos. De acordo com Ivón, a falta de energia compromete o abastecimento de água, a operação de bancos, cartórios, telefonia e internet.
"Quando você tenta sacar dinheiro no banco, se não há eletricidade, os caixas eletrônicos não funcionam. Se você precisa realizar algum tipo de procedimento legal e o cartório não tem energia, eles não conseguem trabalhar. É muito difícil", relata.
Ela também observa que, nas últimas semanas, os preços de alimentos essenciais aumentaram em ritmo mais acelerado. Arroz, óleo e carne de frango, itens básicos na alimentação dos cubanos, tornaram-se mais caros.
Nas províncias do interior, os apagões podem durar praticamente o dia todo. Ivón conta que familiares precisam sair cedo para comprar alimentos em pequenas quantidades, para evitar perdas causadas pela falta de refrigeração.
O economista aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, de 71 anos, avalia que o momento atual é mais desafiador do que o chamado "período especial" da década de 1990, quando o país enfrentou forte crise econômica após a reconfiguração do cenário internacional.
"Este é o momento mais difícil que o país já enfrentou. A situação energética é muito grave. É mais cruel e severo do que durante o período especial, tanto material, quanto espiritualmente mais desafiador", afirma.
Segundo ele, o Estado tem hoje menor capacidade de garantir integralmente a cesta básica distribuída à população ao longo dos anos.
A escassez de combustível também afetou a mobilidade. O transporte público opera com linhas reduzidas, muitas vezes com apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde. Algumas rotas deixaram de funcionar regularmente.
"O transporte público já sofria com falta de peças de reposição, agora, devido à escassez de combustível, está ainda mais reduzido. As linhas regulares da cidade oferecem apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde. E algumas linhas nem sequer garantiam isso", diz Ivón.
Feliz Jorge observa que a oferta de transporte nacional também caiu. Segundo ele, trens e ônibus interprovinciais passaram a operar com intervalos maiores, dificultando deslocamentos entre as cidades.
A crise energética tem repercussões também na área da saúde. Consultas foram canceladas e atendimentos de emergência passaram a ser priorizados. A dificuldade de acesso a medicamentos é outro fator mencionado pelos entrevistados.
"Muitas pessoas dependem de medicamentos para a saúde mental e, enquanto os tomam, mantêm-se controladas e estáveis. Mas, se interromperem o tratamento, ocorrem acidentes que afetam toda comunidade", exemplifica Ivón.
Apesar das dificuldades, a educação segue funcionando. Segundo a arquiteta, escolas costumam estar próximas das residências, o que facilita o deslocamento de crianças e adolescentes. Atividades culturais gratuitas também permanecem disponíveis, como aulas de música frequentadas por seu filho.
Os entrevistados avaliam que a situação econômica começou a se deteriorar com a pandemia de covid-19, que afetou o turismo, principal atividade econômica do país. Desde então, múltiplos fatores econômicos e estruturais têm pressionado o cotidiano da população.
Ivón resume o momento como uma convergência de problemas. "Eu diria que este é o período mais difícil que já enfrentamos em termos de escassez de combustível e energia porque muitos problemas convergiram ao mesmo tempo", afirma.
Para Feliz Jorge, a sociedade cubana enfrenta desafios complexos, mas mantém a expectativa de superação diante do cenário adverso.