Nos tempos em que Bom Jardim era só barro e carreira de chão, e Marechal ainda vivia de promessa de asfalto, o tio Osvald apareceu com um Fusca zero comprado na Reveral.
Azul que dava gosto. Cheiro de carro novo.
Virou assunto no Bolicho e orgulho da família.
O Fuca fazia de tudo. Levava galinha, criança, saco de milho e até a sogra, sempre resmungando do calor. Pegava estrada ruim sem se queixar. Motor roncava baixo, firme que nem junta de boi...
Mas numa manhã pesada, dessas de céu parado, o volks não quis pegar.
Tio Osvald girou a chave.
Nada.
- Bateria fraca - sentenciou, coçando o bigode.
Resolveu no método antigo: empurrar no tranco.
E lá foi ele, sozinho, morro acima, fincando o pé no chão, puxando o Fuca na força bruta. Suava que nem cavalo velho.
Quando chegou na beira da descida, ajeitou o plano.
Engatou segunda.
Girou a chave.
E botou um tijolo no acelerador.
- Agora vai.
Correu pra trás pra dar o embalo.
E foi.
O Fuca disparou morro abaixo feito cavalo solto. Levantou terra, pulou valeta e atravessou o pasto sem dono no volante. Antes que desse tempo de pensar em Deus, já estava nos palanques do paiol.
Estalo seco. Madeira no chão. Galinha avoando... cachorro latindo... porco gritando... e o rádio ligado na cozinha.
Quando o tio chegou lá embaixo, o Fuca estava torto, farol vesgo, para-choque mordendo tábua.
Ele tirou o chapéu, respirou fundo e olhou o estrago.
Depois gritou pro lado da casa:
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