A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou, em Brasília, uma extensa e incisiva Mensagem de Ano-Novo na qual expressa “grave preocupação” com retrocessos éticos, sociais e democráticos vividos pelo país ao longo de 2025. O documento, publicado no encerramento do ano civil e do Ano Jubilar nas dioceses, combina reconhecimento de conquistas com um diagnóstico duro sobre fragilidades institucionais, desigualdades persistentes e ameaças ao bem comum.
Inspirada na passagem bíblica “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), a carta assume tom pastoral, mas também político no sentido amplo, ao analisar o contexto nacional e convocar a sociedade a reencontrar caminhos de diálogo, pacificação e responsabilidade social.
Os bispos reconhecem que 2025 também foi marcado por fatos que renovaram a esperança. No campo da saúde pública, a CNBB destaca o aumento da proporção de médicos por habitante e reafirma gratidão ao Sistema Único de Saúde, apontado como pilar essencial da proteção social no Brasil.
Na economia, o documento menciona a retirada de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, a estabilidade da inflação, a queda da taxa de desemprego, o crescimento do Produto Interno Bruto, a expansão do cooperativismo e a abertura de novos mercados internacionais. Também são citados como sinais positivos o fortalecimento de práticas de sustentabilidade, com crescimento de investimentos privados em critérios ambientais, sociais e de governança.
No campo ambiental, a realização da COP30, em Belém, e o protagonismo brasileiro em energias renováveis são destacados como marcos que reforçam o compromisso com o cuidado da “Casa Comum” e o enfrentamento da crise climática. A mobilização popular em torno da redução da jornada de trabalho e da taxação proporcional à riqueza também é apontada como expressão de participação social.
Apesar dos avanços, a CNBB afirma que o ano foi atravessado por “profundas tensões e retrocessos sociais” que deixaram feridas abertas no tecido democrático. Segundo o documento, a convivência democrática foi seriamente comprometida por interesses econômicos, disputas de poder e práticas que minaram a confiança nas instituições.
Entre os pontos de maior preocupação estão o pagamento elevado de juros e amortizações da dívida pública, que limita investimentos em áreas essenciais, o enfraquecimento da ética e o avanço da corrupção, além da fragilização de mecanismos democráticos. A carta critica de forma explícita a flexibilização de marcos legais como a Lei da Ficha Limpa e mudanças na Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
Os bispos também denunciam o desrespeito aos povos originários e tradicionais, agravado pela aprovação do marco temporal no Congresso Nacional, as ameaças à proteção ambiental, o crescimento da violência, especialmente o feminicídio, e o avanço do uso de drogas e das chamadas economias ilícitas. A mensagem aponta ainda a perda de decoro e a falta de responsabilidade de algumas autoridades, com menção direta ao Congresso Nacional.
A carta reafirma de forma enfática a posição da Igreja Católica contra qualquer iniciativa de legalização do aborto, defendendo a sacralidade da vida humana desde a concepção até o fim natural. Ao mesmo tempo, amplia o entendimento de defesa da vida, vinculando-o ao combate à fome, à miséria e à desigualdade social.
Para a CNBB, proteger a vida significa criar condições concretas para que todos tenham dignidade e acesso a direitos básicos, permitindo que a vida seja vivida “em abundância”.
Mesmo diante de um cenário descrito como sombrio em vários aspectos, a mensagem aposta na esperança como força transformadora. Inspirados na poesia de Thiago de Mello e no legado de Dom Helder Câmara, os bispos reforçam que nenhuma escuridão é definitiva.
A democracia, segundo a CNBB, permanece como patrimônio do povo brasileiro e precisa ser cuidada, promovida e fortalecida. O documento convoca cristãos e toda a sociedade a serem construtores de pontes, artesãos da paz e promotores da responsabilidade social, destacando que o país necessita reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo.
A Mensagem de Ano-Novo é assinada pelo presidente da CNBB e arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Cardeal Spengler; pelo arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente, Dom João Justino de Medeiros Silva; pelo segundo vice-presidente e arcebispo de Olinda e Recife, Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa; e pelo secretário-geral da conferência e bispo auxiliar de Brasília, Dom Ricardo Hoepers.
Ao encerrar a carta, a CNBB projeta 2026 como um tempo de reconstrução, convocando o país a caminhar como “peregrinos de esperança”, firmes na defesa da vida, da justiça social, da democracia e do cuidado com a Casa Comum.