A observação de Jesus de que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, encerrou a conversa com um jovem abastado que procurou o Rabino para lhe fazer a pergunta: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?”
De acordo com Mateus, Jesus respondeu: “Não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ao que replicou o jovem: “A tudo isso tenho obedecido. O que me falta?”
Jesus respondeu: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me”. Foi demais: “Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas”. Com pouca variação, a narrativa também é registrada por Marcos e Lucas.
Algumas fontes hebraicas, aramaicas e gregas afirmam que há um erro de entendimento relacionado à palavra “camelo”. Neste caso, camelo, seria aquela corda reforçada utilizada para amarrar navios ou malhas grosseiras que formavam as redes utilizadas pelos pescadores à época de Cristo.
Não é novidade que uma palavra mal interpretada pode mudar o contexto da narrativa. Contudo, é preciso admitir, que no caso da agulha e do camelo, não há uma alteração substancial que comprometa o ensino. Persiste a dificuldade em passar um camelo tipo corda, pelo fundo de uma agulha literal. Já para um camelo tipo animal, fica impossível.
Uma outra interpretação, é a crença de que a agulha era uma porta menor inserida numa porta maior que ficava em lugares estratégicos das cidades. Alguns intérpretes acreditam que a porta menor era o portão do fundo da agulha e que para que um camelo, tipo animal, pudesse passar por ali, tinha que se ajoelhar e/ou deixar toda a sua eventual carga pelo lado de fora.
Essa última explicação foi compartilhada conosco quando passávamos por uma porta desse tipo no Monte do Templo em Jerusalém. Na ocasião, o guia ainda reforçou, que a frase utilizada por Jesus, apontava para um tipo específico de rico: o avarento. O episódio do jovem abastado contudo, ainda permite outras digressões.
A moral da citação de Jesus pode gerar desconforto nos mais prósperos que ainda creem, ao menos um pouco, nas narrativas bíblicas. Penso que talvez tenha sido por isso que a frase do Rabino que envolve o “camelo e a agulha” acabou se eternizando. Em meio aos que têm em excesso, haverá sempre alguém que poderá ter menos do que precisa.