Nos últimos meses, filas têm se formado em endereços como o da Rua Carlos Sampaio, em São Paulo, onde a empresa Tools for Humanity realiza escaneamentos de íris como parte do projeto World ID. A iniciativa promete recompensar os participantes com worldcoins, uma criptomoeda que pode ser convertida em dinheiro. Apesar da compensação financeira atrativa, especialistas e entidades alertam para os riscos de privacidade e segurança envolvidos na coleta de dados biométricos.
O escaneamento é realizado com a Orb, uma câmera desenvolvida para capturar padrões únicos da íris humana. A empresa afirma que a tecnologia é capaz de distinguir humanos de robôs com alta precisão, tornando-a essencial em uma era de avanços em inteligência artificial (IA). Após a coleta da imagem, os participantes recebem cerca de 48 worldcoins, que podem ser convertidas em outras criptomoedas ou diretamente em reais.
Segundo relatos, o valor financeiro e a simplicidade do processo são os principais atrativos para quem participa. Basta baixar o aplicativo da World, agendar um horário e, presencialmente, realizar o escaneamento. Porém, a ausência de informações detalhadas no início do cadastro e a falta de clareza sobre os objetivos do projeto levantam dúvidas.
A íris é considerada um dado biométrico sensível, protegido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Por ser único e inalterável ao longo da vida, seu uso requer consentimento qualificado: uma autorização livre, informada e inequívoca. Especialistas alertam que o pagamento pelo fornecimento desse dado pode comprometer a autenticidade desse consentimento, gerando um vínculo implícito entre a recompensa e a cessão da privacidade.
Nathan Paschoalini, pesquisador em governança de dados, enfatiza a relevância do tema. “A íris é um identificador extremamente preciso, e seu uso indiscriminado pode abrir portas para abusos, desde fraudes até violações de direitos humanos”, pontua.
Além disso, os riscos associados ao cruzamento de dados biométricos com algoritmos avançados de IA ainda são desconhecidos. A combinação desses elementos pode resultar em usos futuros não previstos, como vigilância em massa ou exploração comercial.
Tools for Humanity, responsável pelo projeto, afirma que sua missão é preparar a humanidade para o impacto crescente da IA, preservando a privacidade individual. A empresa, cofundada por Sam Altman, CEO da OpenAI, aposta no World ID como um passaporte digital seguro, baseado em dados criptografados e armazenados de forma descentralizada.
Apesar das promessas de segurança, organizações como o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) destacam a falta de transparência e os possíveis impactos negativos desse tipo de iniciativa. “O consentimento dado nessas condições pode ser questionado, especialmente quando há um incentivo financeiro direto”, avalia Karen Borges, gerente adjunta do NIC.br.
A adoção de tecnologias que envolvem dados biométricos, como o escaneamento de íris, traz à tona discussões essenciais sobre o equilíbrio entre inovação e proteção de direitos. Enquanto a World ID avança globalmente, com presença em 39 países, cresce a necessidade de regulamentação robusta e garantias de uso ético dos dados coletados.
Para os participantes, o atrativo financeiro pode parecer uma solução imediata, mas especialistas recomendam ponderação. A reflexão sobre os potenciais usos e abusos desses dados é indispensável em um cenário onde a privacidade é cada vez mais valiosa.